SECÇÃO: bocas

DEDICADO A MANUEL PINHO, CONTRA OS POLÍTICOS DE MÁ MEMÓRIA

Com a devida ressalva da intenção, aqui se prova que as touradas desde sempre estiveram ligadas à política.
Bem vind@ ao : fractura.net!
Se o conteúdo deste blog lhe parece útil, considere subscrever o feed rss em qualquer agregador ou receber as actualizações confortavelmente no seu e-mail.
Grato pela visita!Com a devida ressalva da intenção, aqui se prova que as touradas desde sempre estiveram ligadas à política.

  • Share/Save/Bookmark
SECÇÃO: democracia, opinião, política nacional, portugal

O ESTÁDIO DA NAÇÃO

Não ligo peva aos cornos que o Ministro da Economia ofereceu ao deputado e não concordo com os que dizem que esse gesto reflecte o estado da nação. A nação não costuma ser assim tão sincera. Os deputados, com cornos ou sem eles, os governantes, com cornos ou sem eles, são somente responsáveis por transformarem Portugal no país que é agora: um país do terceiro-mundo, mas com televisão a cores e um Estádio da Nação.

É algo irónico que num local como a Assembleia da República, onde se digladiam retóricas e argumentos que não passam de mentiras e contra-mentiras, onde se esgrimam passados sem cuidar, verdadeiramente, do futuro, uma sessão acabe com a demissão do único elemento que foi capaz de um gesto genuíno. Argumentemos que se ultrapassou a decência que a solenidade impõe e que a Assembleia da República não é local de garraiada não esquecendo, porém, que não é somente na atitude histriónica que o desrespeito se verifica. Há-os bem mais acalorados e intempestivos, bem mais mal-educados e mal-intencionados em muitas palavras deixadas no habitual discurso de deputado e governante, embora escondidos sob a capa da regra que permite, na política, ir um pouco mais além do que na vida privada, no que à utilização do insulto e de expressões atentatórias da integridade dos oponentes. Na vida política tudo é permitido, desde que não se desça do patíbulo e se tome a linguagem da plebe. Apesar de concordar que a atitude de Manuel Pinho não se enquadra no espírito que considero desejável numa instituição que representa a vontade soberana do Povo – esse que aparentemente os elege -, sinto estranheza nas atitudes de virgem ofendida vindas da parte de protagonistas de algumas das mais bizarras peixeiradas a que pudemos – e poderemos – assistir. É especialmente preocupante que, de tudo o que (não) foi dito neste debate, a memória histórica vá apenas registar um par de galhos protagonizado pelo Ministro da Economia, em resposta a uma provocação que a bílis não soube aguentar. A verdade, essa entidade que ultimamente tem sido tão insultada por todos os quadrantes políticos, é que os debates parlamentares resumem-se apenas a propaganda e contra-propaganda, a acções que em nada dignificam a instituição e muito menos o Povo que esta pretende representar. O debate de ontem, registado sob o pomposo nome de “Estado da Nação”, teve o condão de falar de tudo menos do tema título. Na verdade, resumiu-se ao encadear de retóricas que a nada levam e que nem sequer conseguem definir qual é, na verdade – a tal – o estado em que o país se encontra. E qual é, afinal, o estado em que o país se encontra?

Nem sempre a suposta objectividade dos números consegue reflectir o estado de um país. O problema reside no facto de um país ser, antes de mais, as pessoas que o constituem, os seus recursos naturais, o ambiente que se vive. Há, no entanto, alguns números que reflectem um pouco mais a realidade do estado desta nação, os da abstenção e os da mais completa falta de interesse, não só pela vida partidária, como pela política em si. O que é normal, diga-se. O que os números não conseguem definir por si só é a desolação, a ansiedade, a depressão de um Povo cujo presente nada augura de bom para o futuro mais próximo e, quem sabe, para o mais longínquo, dada a incompreensão revelada pelos políticos em relação à sua realidade. O que se passa é que os políticos vivem numa espécie de redoma académica em que todas as teorias e experiências são permitidas, no contínuo sacrifício das cobaias que estranhas normas éticas não conseguem proteger. Estes políticos sabem que nos dias que correm a revolta destas cobaias é impossível, já que estas estão por demais endividadas, presas a compromissos que a possibilidade do desemprego e a malfadada crise colocam em risco. Falo de um Povo permissivo na sua desistência, o que esta gente do Estádio da Nação pretende representar.

Portugal é um país sem génio. Dependente política e economicamente da Comunidade Europeia e restantes países “amigos”, Portugal não consegue resolver os seus assuntos de forma rápida e segura. Qualquer problema existente, que geralmente implica gastos, apenas tem resolução possível com mais uma injecção de dinheiro vindo de fora. Como um cão que tenta morder a cauda, corremos em círculos. Pedimos dinheiro emprestado para pagar empréstimos. Os empresários já há muito deixaram de acreditar no investimento. À crise respondem da forma mais fácil, com a redução de custos – leia-se de gastos com pagamentos de salários -, não sendo estranho a esse facto o decréscimo da inflação ser acompanhado de um decréscimo muito maior dos valores dos vencimentos pagos pelas empresas. Os atropelos aos direitos dos trabalhadores é constante e assinado por baixo por quase todas as organizações políticas que remetem a defesa dos trabalhadores para os sindicatos senis que continuam a fazer o papel de porta-estandarte de ideologias que a História tratou de, há muito, denunciar.

A educação portuguesa é feita em escolas mal equipadas, por professores mal pagos, obedecendo a programas educativos facilitistas, numa espécie de “no child left behind” americana, o tal programa que tantos ignorantes tem oferecido ao mundo. Assim, Portugal tem a oportunidade de colaborar, também, na espécie de Nova Idade Média em que o Mundo se encontra, em que se distinguem as coisas entre Bem e Mal, valores especificados por regulamentação e campanhas de (des)informação. A produção académica faz-se, também ela, numa espécie de redoma, apesar das tentativas de Mariano Gago no sentido de ligar as universidades ao tecido empresarial e, assim, fazê-las produtivas. Os que, acabado o curso, revelam alguma inteligência e rasgo empreendedor, desde logo apanham a primeira caravela que os leve a novos mundos. E por lá ficam. O mundo educativo transformou-se num permanente circo de “Novas Oportunidades” e Magalhães, numa utopia em que todos somos doutores, nem que seja à força, nem que sejamos todos doutores em Ignorância, com todos os pós-doutoramentos que a vida nos vá oferecendo. Falamos então, do quanto é necessária a avaliação dos professores, da forma como esta deve ser feita, de quem há-de fazê-la. Falamos da sua resistência a esta. Falamos sobre sindicatos cujos representantes têm tido um protagonismo sem igual, sem no entanto contribuírem um pouco que seja para a resolução definitiva do problema. Não falamos, por outro lado, dos programas educativos completamente desajustados à vida e que apenas apostam nos “desafios actuais” e na “saída profissional”, deixando de parte a formação de cidadãos livres e pensantes, colaborantes com a coisa pública. Deixamos cair o ensino da Filosofia, da História e da Arte para discutirmos se havemos ou não de leccionar Moral Religiosa e Educação Sexual, depois de resolvermos que o melhor é concentrarmos os miúdos em disciplinas “técnicas”. O saldo final é a produção de pessoas cujos exames de matemática são ridículos. Resultado final é o de miúdos cujo maior desconforto na prova de Língua Portuguesa foi o de terem de escrever uma dissertação sobre a Liberdade. Formemos então fornadas de Médicos, Engenheiros, Doutores e Arquitectos completamente ignorantes, passivos e servis. Em Portugal como na China.

Aos que não têm a sorte (ainda assim) de completar os estudos superiores e que se deixam ficar pelos primeiros bancos de escola, a vida reserva-lhes pouco mais do que a subsistência à custa do cartão de crédito e ao acesso facilitado ao crédito que se oferece em cada esquina. Não façamos contas aos juros, o que interessa é quanto se paga por mês. O trabalho não tem que ser produtivo. Interessa, sobretudo, cumprir regras e alimentar a máquina. Gerações e gerações de fogueiros, tem sido assim a vida laboral portuguesa, a imitar um pouco a das Forças Armadas que, para tão poucos soldados, tem tantos oficiais. A vida laboral funciona em circuito fechado. A tudo. Às ideias, à vontade de progredir, à assumpção do risco como oportunidade. E ai do que reclame. A crise está aí para desculpar qualquer supressão de posto de trabalho. O que interessa ao trabalhador comum, ao que aperta parafusos ou assenta tijolo durante todo o dia, ao que vira frangos na churrasqueira ou que insere caracteres sem fim num computador? A cidadania? A cidadania do trabalhador comum é a que lhe é pedida pelos nobres deputados da nação: a da abstinência de opinião, a do seguidismo em tempo eleitoral, a do “não faças ondas” em tempo de poder – ou o inverso, que também serve. Ao trabalhador comum apenas se pede que tente pagar as contas ao fim do mês com a anedota de salário que recebe, e que pense onde há-de ir de férias, de preferência a crédito, para alimentar a máquina do sistema bancário, em tantas necessidades. De resto, esqueçamos o trabalhador comum, por ora, que cousas mais altas se alevantam.

As crianças e os velhos vivem sem protecção especial. São as franjas mais frágeis da população e ninguém parece conseguir arranjar algo que realmente os apoie. O Estado-providência dos nossos descontos não ata nem desata, limita-se e remendar quando o mal está feito. Velhos a sobreviver com pensões escandalosamente anedóticas, em casas arruinadas ou em “lares” onde são feitos prisioneiros. Miúdos a viver em casas sem condições, ou em condições sub-humanas, sem recurso a bens essenciais como os da alimentação saudável, para o corpo e para a mente – ou encerrados em instituições, máquinas dignas de um “The Wall”, onde são formados em ignorância, trabalho escravo, prostituição forçada ou voluntária e droga. E por aí fora: saúde (a que temos, mas sobretudo a que não temos), segurança (a dos polícias mal pagos, mal instruídos, mal tratados), as forças armadas (subsídio-dependentes ao serviço do estrangeiro), a justiça (onde não se percebe o que é o quê, para que serve, se vai ser posto em prática e quando, a impunidade). Portugal é, acima de tudo, o paradigma do “desenrascanço” – fica assim para agora, depois se vê se conseguimos resolver o assunto. E isto configura-se em algo mais grave. Transforma este país num grupo de pessoas com o futuro permanentemente adiado, num grupo de gente dependente do todos os outros, cuja necessidade de sobrevivência as faz perder a consciência comum de nação. Transforma Portugal num desequilíbrio de assimetrias entre o litoral e o interior, entre o Norte e o Sul, entre a riqueza mal aproveitada e esbanjada das principais avenidas das principais cidades e a paupérrima figura do esgoto a céu aberto passadas três ou quatro paralelas a essa avenidas. Os deputados, com cornos ou sem eles, os governantes, com cornos ou sem eles, são somente responsáveis por transformarem Portugal no país que é agora: um país do terceiro-mundo, mas com televisão a cores e um Estádio da Nação.

É por isso que não ligo peva aos cornos que o Ministro da Economia ofereceu ao deputado. E é por isso que não concordo com os que dizem que esse gesto reflecte o estado da nação. A nação não costuma ser assim tão sincera.
  • Share/Save/Bookmark
SECÇÃO: influências, linguística, tradução

DESACORDOS ORTOGRÁFICOS: TRADUZIR LÍNGUAS DIFERENTES

Minha língua é minha pátria, e gosto de saber que meu leitor está em casa, seja ele russo, árabe ou português.

Cristovão Tezza, escritor:
«E então, página a página, preso na ótima narrativa, comecei a perceber mais objetivamente o que nos incomoda tanto, a nós e a eles. Não há a rigor uma só frase que não nos cause estranheza – tudo é familiar, mas pelo caminho espalham-se pedrinhas de sentido a desviar o rumo. Quanto à linguagem, em nenhum momento o leitor se sente em casa, e isso é mortal na prosa literária, que tem na vida cotidiana da língua a sua matéria-prima de origem. Não é só vocabulário, o que seria um problema simples – é sintaxe mesmo, os pronomes todos e seus modos de usar, campos semânticos sutilmente distintos, regências particulares que vão como que armando um novo modo de ver o mundo, tudo que metaforicamente define uma língua.»
«Se meu livro, escrito em brasileiro, pode ser traduzido para o catalão, porque não para o português? Sei que esse é um vespeiro terrível, e temo estar a provocar serial killers linguísticos esbravejando contra meu crime de lesa-pátria. Ora pois, minha língua é minha pátria, e gosto de saber que meu leitor está em casa, seja ele russo, árabe ou português.»
  • Share/Save/Bookmark
SECÇÃO: comunicação política, influências

O SILENCIOSO VÁCUO LARANJA REVISITADO

Um partido que não aposta em mais do que programas fotocopiados do "Índice do Situacionismo" de José Pacheco Pereira, agora em modo Marcello Caetano, educador do Povo.
A funcionar como adenda ao artigo anterior, regista-se por aqui a acusação de Agostinho Branquinho, deputado do PSD, de estar a RTP a ser instrumentalizada pelo governo e pelo PS e de prosseguir há três anos uma estratégia de silenciamento do partido nos seus noticiários. Esta acusação do deputado laranja baseia-se nos relatórios da ERC sobre o pluralismo político partidário, cujos valores de referência são contestados por José Alberto Carvalho, director de informação da estação pública, que vai ser ouvido na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura na próxima quarta-feira, pelas 10 horas. Frase digna de reciclagem, da autoria do deputado Agostinho Branquinho:
«O que está por detrás desta estratégia escandalosa de silenciamento do PSD é depois vender-se a ideia de que o PSD sobre as diferentes questões não tem posição. Esse mal nunca vai ser corrigido.»
Reflexos da atitude de um partido que NÃO aposta em agências de comunicação, NÃO aposta nos novos media, NÃO aposta em mais do que programas fotocopiados do "Índice do Situacionismo" de José Pacheco Pereira, agora em modo Marcello Caetano, educador do Povo.
  • Share/Save/Bookmark
SECÇÃO: comunicação política, opinião, política nacional

O SILENCIOSO VÁCUO LARANJA

A estratégia de Manuela Ferreira Leite e do PSD não me parece ser estratégia alguma. Nem eleitoral, nem governativa. O discurso tecnocrata da líder não convence os portugueses, especialmente no caso de vir o PS a fazer uma espécie de campanha semelhante, começando a relembrar o passado, “em nome da verdade”.
Falava-me o Álvaro, ainda ontem ao almoço, sobre as suas impressões acerca da escalada de Manuela Ferreira Leite na escadaria das sondagens de popularidade. Dizia-me ele que a líder do PSD tinha revelado um valente par de tomates ao chamar mentiroso a Sócrates e que essa estratégia se estava a revelar eficaz. Por minha parte, disse-lhe que o PSD não tem estratégia e nem sequer faz campanha. Na minha modesta opinião, o PSD apenas faz contra-campanha, aproveitando-se das fragilidades discursivas de José Sócrates e restante governo e PS, das mais que badaladas controvérsias em torno de Freepóres, TVI’s, relações com os media, etc. Digo isto porque me parece evidente que o PSD e Manuela Ferreira Leite se refugiam no contra-ataque, não deixando nunca antever qualquer opção realmente válida à acção governativa. Dali não sai nada, a não ser o mais completo vácuo de ideias, muito pouco próprio de um partido que pretende ser uma alternativa de governo. De qualquer forma, as eleições legislativas entre o PS e o PSD assemelham-se a uma corrida de Fórmula 1, em que ganha o que cometer menos erros, já que viaturas as viaturas são extremamente parecidas tecnicamente e os condutores apenas diferem ao nível de execução técnica e resistência ao cansaço e aos nervos. Falar de condições, por parte do PSD, para se constituir uma alternativa governativa na próxima legislatura é falar da condução de uma mesma viatura, num mesmo circuito, mas com um outro piloto. Quais as diferenças restantes? Embalados pela derrota do PS nas eleições europeias, os laranjas parecem esquecer que não devem tomá-la como um dado determinante para as legislativas pois, apesar da sua importância ao nível psicológico, quer os objectivos das próximas eleições, quer o número de votantes, sugerem diferenças a ter em conta. Neste contexto, seria enriquecedor ouvir de Manuela Ferreira Leite algo mais do que o constante apelo à verdade e a uma moralidade que apenas encontram paralelo na recentemente adquirida humildade de Sócrates. Seria bom, por exemplo, que a líder do que deveria ser o maior partido da oposição nos dissesse, linha por linha, quais as suas acções governativas, explicando detalhadamente o que se propõe fazer no campo das obras públicas, saúde, educação, trabalho e segurança, em vez de escutarmos diariamente os lugares comuns que debita para entretenimento das massas. Os portugueses já sentem o que está mal. Agora, querem saber porque está mal e, muito importante, como corrigir. Do que nós estamos fartos é de ver governantes a desculparem-se com a crise e oposições a culpá-los desta. Verdade, verdadinha, estão ambos errados, estão ambos a gozar connosco. Não compreendo por isso a continuidade de uma espécie de “estratégia de silêncio”, aqui e ali interrompida por um esgar salazarento da líder ou por mais um índice do situacionismo, agora ao vivo e a cores. Pedro Passos Coelho, ex-candidato à presidência do PSD, pergunta, no artigo para o Jornal de Negócios, se «… verá o País como mobilizador e positivo um programa de reformas que implica, na maior parte das políticas públicas, uma orientação de efeito menos popular por implicar restrições adicionais?», perguntando ainda se «… mesmo supondo que a orientação a seguir fosse a de disfarçar um tal programa para supostamente não assustar o eleitorado, poderia um governo com esta orientação ganhar as eleições com conforto aritmético e conseguir implementar um programa para o qual não havia mobilizado claramente o País?». É ele mesmo quem responde: «Não escondendo ao País que as reformas serão difíceis, falando pois verdade e apresentando um programa de acção ambicioso a pensar no futuro, pode tornar mais difícil o retorno eleitoral. Mas estará a cumprir um desígnio democrático muito importante que é o de oferecer uma alternativa não meramente funcional ou formal mas substancial, que não pode impor a Portugal mas que deve esperar que os Portugueses subscrevam e adiram. A melhor solução eleitoral é, assim, conseguir mostrar que um programa de reformas difíceis pode ser mobilizador e trazer, em simultâneo, a marca esperança.» A estratégia de Manuela Ferreira Leite e do PSD não me parece ser estratégia alguma. Nem eleitoral, nem governativa. O discurso tecnocrata da líder não convence os portugueses, especialmente no caso de vir o PS a fazer uma espécie de campanha semelhante, começando a relembrar o passado, “em nome da verdade”. Para além disso, são visíveis as diferenças de postura da líder do PSD em relação a Sócrates no que aos principais temas “fracturantes” se refere, o casamento homossexual, o aborto, as relações laborais, etc., temas em que Manuela Ferreira Leite fica muito aquém do Primeiro-ministro em termos de sensibilidade humanista. E, parecendo que não, isso faz toda a diferença, não só na campanha, mas também, espero, na escolha. Mas o maior problema no meio de tudo isto é o nível de expectativas em termos de governo e opções governativas. Em nome da verdade, convém dizer que são muito baixas. Venha das eleições o que vier, não é de esperar uma maioria absoluta. Considero, neste aspecto, que tal é saudável para a participação democrática dos representantes eleitos e, supostamente, do Povo que os elegeu. Mas, conhecendo as peças como conheço, tal será difícil. Será, assim, uma legislatura de “caos democrático”, com entediantes debates parlamentares que não levarão a lado algum, excepto ao sublimar do funcionalismo público. Será mais uma legislatura, já sem Manuela Ferreira Leite, em que o governo governará e o principal partido do que deveria ser a oposição tratará de manter os lugares na Assembleia, sem nada a acrescentar ao debate democrático, excepto a retórica parlamentar para gáudio da assistência. Será a continuação da “estratégia do silêncio” apenas pontuada pela crítica óbvia sem um pingo de construção.
  • Share/Save/Bookmark

fractura.net/twitter