Tinha escrito por aqui que é a comunicação feita pelo cidadão comum aquela que está a garantir a cobertura de algumas ocorrências às quais os órgãos de comunicação social tradicionais não têm acesso, oportunidade, ou interesse em lá chegar. Como disse, os telemóveis e blogues espelham, um pouco por toda a parte, essa ânsia de partilhar a informação de que se dispõe, com claras mais-valias em casos de atropelos aos direitos humanos ou naqueles em que tragédias ocorrem e que impossibilitam a adequada cobertura do acontecimento. Estes são os responsáveis por espoletar os pedidos de auxílio internacionais e pelo alerta para a realidade, pela divulgação de imagens e textos não sujeitas às regras que são observadas pelos media tradicionais.
Mas existe um outro lado, o da utilização abusiva da imagem pelos que da tecnologia dispõem e, mais grave ainda, o eco que é feito a essas mesmas imagens. Como exemplo para o primeiro caso, tomo o de imagens que são registadas sem conhecimento ou mediante manipulação dos visados e subsequente publicação na Internet. E por aí há de tudo: desde o simples “apanhado” até à imagem de um casal na intimidade, após uma festa bem bebida. Como exemplo para o segundo caso, tomo as imagens da aluna, da professora e do telemóvel.
Este caso dá-nos que pensar e creio que é razoável pegar nas duas questões da Madalena Oliveira como ponto de partida para uma reflexão:
Deve ou não o vídeo ser divulgado? Está no YouTube e de acesso generalizado, mas devem os órgãos de comunicação social “tradicionais” ampliar o efeito?
Certo é que as imagens são já públicas, embora o sejam sem a autorização dos intervenientes estar devidamente esclarecida. Mas, supondo que essa autorização não existe, qual a posição de um jornal em relação ao assunto? E, se o está, até que ponto é “noticiável” um vídeo - no caso, o tal da aluna, da profesora e do telemóvel - que demonstra, tão somente, o acumular de erros e tensões, em conjunto com a paródia instalada?
É a realidade, dirão uns, e como tal deve ser noticiada. É a realidade, dirão outros, mas como tal deve ser tratada de forma a que não se transforme em regra.
A carga simbólica das imagens transmitidas é-o sob a forma de imagem sem edição, com recurso ao texto oral, este apresentado também sem edição. O objectivo da emissão deste vídeo parece-me indiscutível: remeter o público para o medo de uma sociedade em convulsão, cujos valores estão em mutação e escapam já à compreensão da maioria. Mais que alertar, provoca sensação. É uma notícia, para todos os efeitos, sensacionalista. Torna-se assim discutível a estreita relação entre informação e manipulação da informação que, neste contexto, me parece óbvia. Entretanto, subsiste a questão: como tratar este tipo de informação?
Que papel terá o telemóvel [com vídeo] na divulgação das situações várias do nosso quotidiano? É um “realizador” em cada um de nós? Ou um Big Brother?
O telemóvel com vídeo, à semelhança de outros aparelhos de registo de som e imagem, desempenhará um papel cada vez mais importante na comunicação, seja ela de que tipo for.
A divulgação de imagem e som está, para já, no limbo das garantias de liberdade individual e do direito ao nome e imagem. A realidade é que pouco ou nada se pode fazer, não sendo previsível que se tome alguma medida em relação ao assunto em tempos próximos. Os aparelhos referidos são utilizados em meios e sistemas de comunicação complexos e a sua transmissão, retransmissão e difusão escaparão ao controlo, a não ser que medidas sejam tomadas. E estas medidas, a serem-no, serão sempre de carácter censório, dada a dificuldade de manter os canais separados uns dos outros, o que provoca a situação de, ao obstruir uns, obstruir muitos.
E depois, quais serão os critérios para uma avaliação da rectidão dos conteúdos? Esta é uma discussão sem fim.
Apesar de todas as dúvidas éticas e filosóficas, a tendência generalizada é considerar que é necessária uma legislação e meios para cumprir a tarefa de filtrar conteúdos. Pessoalmente, tenho vindo a mudar a minha opinião acerca do assunto, um pouco ao sabor dos acontecimentos, que vêm, neste e noutros campos, a precipitar-se em catadupa.
A experiência que tenho vindo a ter na utilização da Internet como veículo de expressão popular, democrática e libertária de todas as camadas sociais com acesso a este meio, é a de que um tipo de código ético é apenas possível no quadro de um tipo de convenção subjectiva, isto é, a ter efeitos no interior de cada organização que se faça representar no meio. Um código de carácter objectivo não é possível, desde logo por se tornar incompatível com a globalidade das legislações, cada qual com as suas especificidades.
O que quero dizer é que nada impede que os jornalistas portugueses tenham um código específico para o trabalho online, à semelhança dos comunicadores de relações públicas ou das redes de bloggers. Tal será impossível, pelo menos sem recurso a complexas negociações, se quisermos fazer algo do género que englobe jornalistas de vários países ou englobando jornalistas e bloggers. Completamente impossível - e talvez indesejável - será fazê-lo à escala da Internet ou da blogosfera.
Estas ferramentas de registo dão, efectivamente, a oportunidade de cada um de nós se transformar num realizador. E isso tem vindo a provar-se com frequência, existindo trabalhos de jornalismo e de vídeo muito bons, publicados um pouco por toda a parte. A possibilidade de cada um de nós se transformar num Big Brother poderá ser apenas verificada se, numa primeira linha, a comunicação social o potenciar e, numa segunda linha, os poderes aproveitarem a ocasião. Não creio que o cidadão comum possa, algum dia, concebê-lo.
Estou a pensar, por exemplo, numa situação em que eu, munido de uma câmara e juntamente com mais dois ou três comparsas, decido começar a perseguir pessoas ou a vigiar um bairro em busca de algo mais comprometedor. Decididamente, não estarei a fazer mais que muitos órgãos de comunicação social não façam já, com recurso a diversas técnicas mais ou menos claras, mais ou menos legais, sobretudo discutivelmente éticas.
A única diferença reside no facto de o site que eu decida montar seja facilmente apagado, ao passo que fechar uma publicação da comunicação social será, em princípio, impossível, sendo mais normal uma multa e indeminização e, em caso extremo, o julgamento do jornalista.
Concluindo, embora ache as perguntas de Madalena Oliveira de grande utilidade à reflexão em torno deste assunto, creio que o artigo tem um grande problema: o título.
As pessoas sempre disseram coisas, sempre tiraram fotografias, sempre tiveram opinião. Sempre foram boas, sempre foram más, rectas, corruptas. O que se verifica actualmente é que essas pessoas têm agora acesso ao que estava reservado apenas a alguns, até há algum tempo: aos meios.
O problema não está no jornalismo-cidadão. O problema está no aproveitamento pela parte dos órgãos de comunicação social de tudo o que lhes possa proporcionar resultados de audiência. Por jornalismo entende-se o que os jornalistas quiserem que se entenda, cidadão ou não.
Como disse um reputado jornalista numa conferência a que assisti recentemente, “a ética desapareceu do jornalismo a partir do momento em que o seu principal objectivo passou a ser ganhar audiências“.
Entretanto, aguardo as mudanças. Serenamente.
Este artigo foi escrito em 22-03-2008 e a sua publicação foi diferida para esta data. Ausente de momento, voltarei lá para 31 de Março, altura em que darei a devida atenção aos comentários e e-mails relativos a este e outros assuntos.