A História em Revolução

A História sempre foi usada pelo poder para legitimar opções e objectivos ou para justificar resultados. A fórmula é simples e eficaz.
Se uma opção é politicamente incorrecta ou prejudicial para os indivíduos, não é raro ouvir-se a justificação de que “a História julgará” esta ou aquela medida, transpondo assim o julgamento para a “coragem” de pretender resultados futuros que se adivinham vantajosos.
Por outro lado, imaginando um território isolado do mundo pela ignorância e pela manipulação da informação e da comunicação, como acontece por aí, não é difícil afirmar que isto ou aquilo tem uma justificação à luz da História. As ligações mais ténues entre dois factos assumem uma importância que se revela como que por magia aos olhos dos mais desinformados. Assim, suponha-se que um ditador quer retirar de circulação indivíduos de determinada opção política, etnia, religião, etc. e que pensa justificar essa opção. Nada mais fácil que procurar na História os condimentos necessários. Eles aparecerão e a sua relevância e legitimidade carecerá apenas de algum estudo acerca da forma mais adequada de os comunicar.
Na minha limitada forma de ver a História e o seu ensino e aproveitamento ao longo do tempo em que vivo, acredito que:
Estas situações são possibilitadas, em grande medida, pelo facto de a História ser um emaranhado de registos que, feitos por quem assistiu aos eventos, teve o cuidado de os descrever. Essa descrição, obedecendo a processos mais ou menos científicos, conforme o tempo em que foi feita ou os objectivos do narrador, não conseguem escapar ao cunho pessoal da interpretação dos factos.
Outro factor que possibilita esta manipulação da história é o tempo que se torna necessário para uma observação distanciada e o mais objectiva possível, não só do evento em si, mas de todas a repercussões que este teve na sociedade envolvente.
Em ambos os factores surge ainda a interpretação possível do leitor actual acerca de factos passados e a reinterpretação possível que este, por sua vez, pode comunicar.
Se bem que a documentação histórica seja constituída por textos, imagens, artefactos e demais objectos que possam reflectir uma determinada época, estes objectos são, antes de mais, indicadores. Não possuem, em si, uma descrição detalhada do pensamento do seu construtor ou ideólogo, salvo nos casos em que este deixou registada, inequivocamente, a sua forma de pensar acerca de um ou outro assunto. E de entre os milhares de livros e registos que podemos ler, apenas um ou outro poderão ter sido escritos por quem viveu a história na carne.
Podemos ler em muitos registos que um monarca de tempos idos foi deposto pois “o Povo foi contra” algo que este tinha decidido. Podemos ler em muitos registos que “o Povo fez a revolução” que depôs um governante ou alterou algo.
Não conseguimos, no entanto, verificar com exactidão o que pensava, realmente, o povo dessa época, durante o desenrolar dos acontecimentos.
A Informação e a Comunicação em geral têm acompanhado este processo de forma passiva, reportando os factos conforme eles sucedem. Editoriais e opinião são fruto de uma liberdade oferecida e um exercício de equilíbrio entre o espartilho do dever informativo e o direito a divulgar uma opinião.
Embora os media representem, por si, uma ferramenta de manutenção da democracia, é certo que podem representar o seu oposto. Tudo depende de quem manda e da forma como manda. Assim, os media, embora reportando a actualidade e podendo nesta influir, são obrigados a manter a todo o custo a independência que lhes permita acompanhar o processo sem a mínima deturpação.
Embora consigamos imaginar que os media seriam o meio ideal para espelhar os rostos, as ideias, as preocupações de uma sociedade que está, neste momento, a viver a História, é sabido que nem sempre tal acontece. Compromissos da mais variada ordem impedem esse tipo de leitura. E depois, quem compraria um jornal para saber o que pensa o Senhor João ou a Dona Maria acerca do aumento do preço do repolho no mercado de S. João de Cascos-de-Rolha?
Comprar, não comprariam, pelo menos apenas por essa informação. Mas interessados em sabê-lo, talvez existissem alguns. A sabê-lo e a discuti-lo mesmo sem terem procurado a informação, apenas por a terem adquirido, talvez mais uns poucos.
A Internet veio alterar este estado de coisas. O acesso à informação tornou-se global, o mundo começou a entrar portas adentro. As páginas pessoais começaram a surgir e a interactividade iniciou-se. Formaram-se os fóruns e blogs começaram a aparecer. No meio de toda esta cacofonia, os governos, instituições e organizações empresariais ou não lucrativas começam a utilizar o meio. Por fim, os jornais. E no meio de tudo isto, a História como ela se regista nestes dias.
Assistimos a uma contribuição popular para os registos históricos sem par nos séculos que precederam o século XX. Qualquer pessoa, com acesso à Internet, pode colaborar com a sua opinião, as suas ideias, as suas teorias. Qualquer um pode publicar pensamentos, diários, o que lhe aprouver. As redes formam-se, as influências estabelecem-se. A sociedade toma forma na rede global de informação.
Como em todas as revoluções – e não haja dúvida que estamos em plena revolução -, assistimos a uma espécie de PREC na Internet e em especial na blogosfera. Daí a cacofonia que se faz, ainda, sentir. Segundo os relatórios existentes, a cada dia são criados 120 mil blogs para se juntarem a um universo que ultrapassa já os 70 milhões que debitam 15 posts por segundo. Mas de que tratam estes 15 posts por segundo, vindos de locais tão remotos e de pessoas tão diferentes entre si, a não ser na necessidade que sentem de tornar públicas as suas ideias ou informações?
Sem pretender exactidão na análise, que remeto a outros muito mais bem informados que eu, creio existirem algumas espécies de utilizadores da Internet, cujas características se definem com alguma facilidade [não apontarei aqui a utilização das redes sociais]:
- Páginas Institucionais – são propriedade de organizações e tendem a oferecer informação acerca da sua actividade e projectos, visão e objectivos, etc., aos diversos públicos. Podem ter ou não possibilidade de feedback dos leitores.
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Páginas Pessoais – são habitualmente utilizadas para divulgação de trabalhos académicos, curricula, informação diversa cuja actualização não seja muito exigente em termos de periodicidade.
- Páginas Informativas – são a adesão dos media tradicionais ao espaço interactivo. Para além de divulgação actualizada de notícias e programação, oferecem actualmente a possibilidade de votação e classificação de artigos, feedback sob a forma de comentários ou e-mail e a subscrição do serviço por e-mail, Feed RSS ou SMS e MMS, entre outros.
- Fóruns de discussão – os fóruns de discussão são habitualmente compostos por indivíduos que partilham interesses comuns e são uma das primeiras formas de web social, se assim se pode dizer. A discussão moderada e distribuída por painéis é feita por pessoas que se inscrevem, tal como num clube.
- Wikis – estes são autênticos agregadores de conhecimento e constituem, na minha opinião, uma revolução à parte.
- Blogs – e, finalmente, a ferramenta que justifica este post que já vai longo, talvez demais. Os blogs são, à imagem da própria Internet em si, identificáveis segundo algumas características e, por si, têm uma dinâmica social em tudo igual à da vida, salvo algumas excepções, como a da oportunidade efectiva de, mais que se lhe pertencer, de se lhe dar forma. Então, quais as principais formas de blogs?
- Blog Corporativo – é o que fazem algumas empresas e organizações que descobriram que os blogs são óptimas ferramentas para medir o pulso aos públicos, ao mesmo tempo que vão informando da vida da sua organização. Interactividade, o “lado humano” da organização, a actualização constante; tudo isto a par da óbvia preferência dos motores de busca por esta ferramenta, dão ao blog corporativo uma série de vantagens que nem o site mais bem cuidado pode oferecer. No caso de adopção desta ferramenta, as organizações apenas terão de ter cuidado com o conteúdo – que deve ser de qualidade – e com a caixa de comentários – que contra o que muitos pensam, faz parte do blog e é da responsabilidade de quem o mantém.
- Blog Informativo – existem alguns blogs que, não sendo corporativos ou ligados a algum tipo de organização, pautam o seu conteúdo por um carácter puramente informativo. Dedicados a um ou mais temas, são os blogs com os quais “sabemos que podemos contar” em caso de necessidade de informação acerca de tecnologia, produto ou serviço. São, não raras vezes, dotados de um tipo de trabalho que rivaliza com as maiores publicações do ramo a trabalhar nos media tradicionais. Insiro nesta classe alguns blogs dedicados a cursos e turmas de escolas e universidades.
- Blog de Opinião – este tipo de blog é um dos quais toda a gente fala. Também são blogs que falam de toda a gente. São, na sua maioria, de opinião política e social, sendo que existem muito menos blogs dedicados à opinião acerca das indústrias e produtos culturais, os que podemos chamar de blogs de crítica. São muitas das vezes injustamente tratados, mesmo pelos próprios bloggers, sob a justificação de originarem a confusão e de confundirem informação com meta-informação ou apenas com outra coisa qualquer. São os blogs que a maioria do jornalismo teima em fazer de conta ignorar e os que os políticos “não lêem”.
- Blog Jornalístico – é de opinião, sai do espartilho da edição e da prática jornalística mais rígida. Começam a ser já patrocinados pelos próprios jornais que permitem, assim, que o jornalista utilize um espaço cuja identidade é endossada pela organização que representa. Pode, por assim dizer, surgir um artigo de opinião de cada jornalista que o media tenha, sem que daí haja prejuízo para a credibilidade da organização, nem para a do jornalista que vê as fronteiras da sua actuação claramente demarcadas.
- Blog Criativo – é de arte, habitualmente. Fotografia, design, arquitectura, cinema, poesia e literatura, enfim, todo o espectro da criação artística – e mesmo científica – que possam conceber.
- Blog Pessoal – este tipo de blog pode dedicar-se a tudo o que vier. Não há fronteiras para este tipo de exercício, tantas vezes solitário, outras com tanta adesão. E não há uma regra que determine a causa de sucesso de uns e o rápido desaparecimento de outros. Nestes blogs é onde se fala de amores, desilusões, sexo, humor, bebés, religião, penteados e sapatos, da família, etc., enfim, da vida do país real, em tempo real, por muito irreais que os assuntos possam parecer.
E, ainda por cima, qualquer um destes blogs pode ser mantido por uma ou mais pessoas, pode pertencer a uma ou mais redes.
Conforme se pode concluir desta análise – que peca por defeito, e de que maneira – é natural que os 15 posts por segundo falem de tudo e mais alguma coisa, desprezando agora as estatísticas que deveria tentar obter acerca dos assuntos mais abordados.
O que pretendo dizer com tudo isto é que a blogosfera é um fiel depositário do conhecimento no tempo em que vivemos. Poderão os mais descuidados vir dizer que anda por aí muita coisa que nem vale a pena ler, muita mais coisa que peca por inexactidão, e muita mais que é puramente ridícula à luz de uma reflexão cuidada. Podem ter razão em qualquer um dos pontos. Perdem-na, no entanto, a partir do momento em que dizem que não são esses os blogs que significam o conhecimento actual.
Na realidade, tanto reflecte o estado do conhecimento actual o resultado da busca de assuntos relacionados com sexo, como o representa o resultado de uma busca relacionada com semiótica. Em ambos os resultados descobriremos artigos muito bem construídos, artigos que não vale a pena ler e outras coisas que nem sequer são artigos.
Mas é o somatório de todos eles que determina o que realmente as pessoas pensam acerca desses e muitos outros assuntos.
O problema da análise do que a blogosfera transmite é a dificuldade em encontrar um pensamento dominante, embora se possam encontrar pontos de confluência das correntes diversas, especialmente no que à questão social concerne. Uma História baseada nos registos deixados pela informação científica e sociológica à mistura com o que se passa na Internet é, neste momento, virtualmente impossível. O que se pode fazer, isso sim, é determinar tendências mas, mesmo isso, não é isento de riscos.
Mas é importante ter consciência de que a História já não é uma coutada dos poderes e dos acólitos do poder. A História feita pelos que a vivem dia a dia vai agora sendo registada, anarquicamente como o é a vida, por todos os que conseguem aceder a este espaço virtualmente infinito e por lá colocar uma palavra, uma imagem, um som que seja.
E isso não é pacífico.
Não é sem significado que vemos que a censura ataca em várias frentes, mesmo em países supostamente democráticos e com liberdade de expressão garantida. As recentes tomadas de posição de governos europeus que visam a regulação dos conteúdos da Internet e da blogosfera em particular, a par da proposta de regulação de conteúdos não jornalístico apresentada pela ERC em Portugal são disso exemplos próximos, não querendo falar do silenciamento de centenas de blogs pelo mundo fora, prisões de bloggers – assim como de jornalistas - , desaparecimento de alguns.
Este novo suporte veio possibilitar a publicação das ideias de cada um dos intervenientes na História e a sua forma de ver como ela está a ser construída, espécie de registos que não existiam até agora. Se a História, um destes dias, irá julgar o que se passa no Quénia, já não o fará simplesmente pelo que for veiculado pelos agentes dos governos ou pelos media tradicionais. Vai ter que contar obrigatoriamente com os escritos em blogs pelos que a viveram por dentro e que, a custo, deixam sair para o mundo, em tempo real, a tragédia porque todo um povo passa.
E isto é perigoso para os poderes instalados. São coisas destas que fazem os governantes pensar em limitações. A História já não poderá ser manipulada a seu bel-prazer, terá que ser confrontada com o que as pessoas, as pessoas vulgares, os milhões de pessoas que publicam 15 posts por segundo tinham a dizer acerca do assunto.
Mas insista-se nas perguntas que originam este post cada vez mais longo e que, de certa forma, deitam a perder quase tudo o que está escrito acima:
Qual é, afinal, a fiabilidade dos blogs como documento informativo ou histórico?
Que dizer da maledicência gratuita, da calúnia, do insulto, da falta de rigor?
Que autoridade pode ser conferida a pessoas que utilizam um meio, uma ferramenta, que lhes permite ter à vista de todos o que dizem pensar?
Que dizer do anonimato?
Diga-se que são fruto da democratização radical, da participação colectiva na revolução da informação em curso. Diga-se que é a bebedeira colectiva num festejo de liberdade como há muito não era visto. Diga-se que, como em todas as revoluções, há e haverá excessos – porque esta é uma revolução contínua, por cada blog que cesse, por cada um que apareça. Diga-se que é o espaço de todos os perigos, de todas as subversões e que por isso é que é uma tela de contradições. Diga-se que é o espaço de um povo global em convulsões de liberdade. Diga-se que é a partilha do conhecimento colectivo, a sinergia das partes de um todo, que é, afinal, o Homem actual – com todas as suas contradições, defeitos, problemas.
O problema não está no que se diz na blogosfera. O problema reside, isso sim, no facto de ainda nem toda a gente conseguir aceder-lhe. Está no facto de muitos serem silenciados. Que dizermos o que pensamos nunca seja um problema.
Por isso, os problemas da cacofonia existente em torno da política e da sociedade, o “diz-que-disse”, a reprodução de artigos só porque sim, as “leituras na diagonal” e os “pseudo-ensaios” como este são simplesmente o reflexo do tempo em que vivemos: confuso, polémico, na vertigem da informação global. São, no fim de contas, a possibilidade única de atingirmos um pensamento universal composto da miríade de visões diversas de um mundo que afinal é único e em que cada um de nós não passa de um copy-paste de outro qualquer.
É a Rede, a globalização democrática em contraponto a uma outra bem mais injusta, é o assumir de posições, nem que não sejam originalmente nossas, posições que podem vir do outro lado do mundo, de alguém que nunca vimos e que nunca iremos ver, de alguém de quem nunca ouvimos falar e de quem nunca mais falaremos. Mas, ainda assim, não seremos os únicos a fazê-lo acerca desse mesmo assunto. Haverão outros, também desconhecidos a fazê-lo. E assim nasce um interesse colectivo, bem diferente do clubístico, partidário ou bairrista.
E isto só pode ser perigoso para quem está habituado a decidir sozinho e aguarda que, um dia, a História lhe dê razão.
Janeiro 18th, 2008 at 8:50 pm
[…] e da blogosfera em particular no registo da história por aqueles que a vivem no dia a dia, “A História em Revolução“. Agora aparece-me no e-mail um excelente post de Rui Miguel Coelho, a chamar a atenção […]
Janeiro 21st, 2008 at 5:24 pm
[…] http://fractura.net/politica/a-historia-em-revolucao/; […]