Não ligo peva aos cornos que o Ministro da Economia ofereceu ao deputado e não concordo com os que dizem que esse gesto reflecte o estado da nação.
A nação não costuma ser assim tão sincera.
Os deputados, com cornos ou sem eles, os governantes, com cornos ou sem eles, são somente responsáveis por transformarem Portugal no país que é agora: um país do terceiro-mundo, mas com televisão a cores e um Estádio da Nação.
 3 | 07 | 2009
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É algo irónico que num local como a Assembleia da República, onde se digladiam retóricas e argumentos que não passam de mentiras e contra-mentiras, onde se esgrimam passados sem cuidar, verdadeiramente, do futuro, uma sessão acabe com a demissão do único elemento que foi capaz de um gesto genuíno.
Argumentemos que se ultrapassou a decência que a solenidade impõe e que a Assembleia da República não é local de garraiada não esquecendo, porém, que não é somente na atitude histriónica que o desrespeito se verifica. Há-os bem mais acalorados e intempestivos, bem mais mal-educados e mal-intencionados em muitas palavras deixadas no habitual discurso de deputado e governante, embora escondidos sob a capa da regra que permite, na política, ir um pouco mais além do que na vida privada, no que à utilização do insulto e de expressões atentatórias da integridade dos oponentes.
Na vida política tudo é permitido, desde que não se desça do patíbulo e se tome a linguagem da plebe.
Apesar de concordar que a atitude de Manuel Pinho não se enquadra no espírito que considero desejável numa instituição que representa a vontade soberana do Povo – esse que aparentemente os elege -, sinto estranheza nas atitudes de virgem ofendida vindas da parte de protagonistas de algumas das mais bizarras peixeiradas a que pudemos – e poderemos – assistir.
É especialmente preocupante que, de tudo o que (não) foi dito neste debate, a memória histórica vá apenas registar um par de galhos protagonizado pelo Ministro da Economia, em resposta a uma provocação que a bílis não soube aguentar.
A verdade, essa entidade que ultimamente tem sido tão insultada por todos os quadrantes políticos, é que os debates parlamentares resumem-se apenas a propaganda e contra-propaganda, a acções que em nada dignificam a instituição e muito menos o Povo que esta pretende representar.
O debate de ontem, registado sob o pomposo nome de “Estado da Nação”, teve o condão de falar de tudo menos do tema título. Na verdade, resumiu-se ao encadear de retóricas que a nada levam e que nem sequer conseguem definir qual é, na verdade – a tal – o estado em que o país se encontra.
E qual é, afinal, o estado em que o país se encontra?

Nem sempre a suposta objectividade dos números consegue reflectir o estado de um país. O problema reside no facto de um país ser, antes de mais, as pessoas que o constituem, os seus recursos naturais, o ambiente que se vive.
Há, no entanto, alguns números que reflectem um pouco mais a realidade do estado desta nação, os da abstenção e os da mais completa falta de interesse, não só pela vida partidária, como pela política em si. O que é normal, diga-se.
O que os números não conseguem definir por si só é a desolação, a ansiedade, a depressão de um Povo cujo presente nada augura de bom para o futuro mais próximo e, quem sabe, para o mais longínquo, dada a incompreensão revelada pelos políticos em relação à sua realidade.
O que se passa é que os políticos vivem numa espécie de redoma académica em que todas as teorias e experiências são permitidas, no contínuo sacrifício das cobaias que estranhas normas éticas não conseguem proteger. Estes políticos sabem que nos dias que correm a revolta destas cobaias é impossível, já que estas estão por demais endividadas, presas a compromissos que a possibilidade do desemprego e a malfadada crise colocam em risco. Falo de um Povo permissivo na sua desistência, o que esta gente do Estádio da Nação pretende representar.

Portugal é um país sem génio. Dependente política e economicamente da Comunidade Europeia e restantes países “amigos”, Portugal não consegue resolver os seus assuntos de forma rápida e segura. Qualquer problema existente, que geralmente implica gastos, apenas tem resolução possível com mais uma injecção de dinheiro vindo de fora.
Como um cão que tenta morder a cauda, corremos em círculos. Pedimos dinheiro emprestado para pagar empréstimos.
Os empresários já há muito deixaram de acreditar no investimento. À crise respondem da forma mais fácil, com a redução de custos – leia-se de gastos com pagamentos de salários -, não sendo estranho a esse facto o decréscimo da inflação ser acompanhado de um decréscimo muito maior dos valores dos vencimentos pagos pelas empresas.
Os atropelos aos direitos dos trabalhadores é constante e assinado por baixo por quase todas as organizações políticas que remetem a defesa dos trabalhadores para os sindicatos senis que continuam a fazer o papel de porta-estandarte de ideologias que a História tratou de, há muito, denunciar.

A educação portuguesa é feita em escolas mal equipadas, por professores mal pagos, obedecendo a programas educativos facilitistas, numa espécie de “no child left behind” americana, o tal programa que tantos ignorantes tem oferecido ao mundo. Assim, Portugal tem a oportunidade de colaborar, também, na espécie de Nova Idade Média em que o Mundo se encontra, em que se distinguem as coisas entre Bem e Mal, valores especificados por regulamentação e campanhas de (des)informação.
A produção académica faz-se, também ela, numa espécie de redoma, apesar das tentativas de Mariano Gago no sentido de ligar as universidades ao tecido empresarial e, assim, fazê-las produtivas. Os que, acabado o curso, revelam alguma inteligência e rasgo empreendedor, desde logo apanham a primeira caravela que os leve a novos mundos. E por lá ficam.
O mundo educativo transformou-se num permanente circo de “Novas Oportunidades” e Magalhães, numa utopia em que todos somos doutores, nem que seja à força, nem que sejamos todos doutores em Ignorância, com todos os pós-doutoramentos que a vida nos vá oferecendo.
Falamos então, do quanto é necessária a avaliação dos professores, da forma como esta deve ser feita, de quem há-de fazê-la. Falamos da sua resistência a esta. Falamos sobre sindicatos cujos representantes têm tido um protagonismo sem igual, sem no entanto contribuírem um pouco que seja para a resolução definitiva do problema.
Não falamos, por outro lado, dos programas educativos completamente desajustados à vida e que apenas apostam nos “desafios actuais” e na “saída profissional”, deixando de parte a formação de cidadãos livres e pensantes, colaborantes com a coisa pública. Deixamos cair o ensino da Filosofia, da História e da Arte para discutirmos se havemos ou não de leccionar Moral Religiosa e Educação Sexual, depois de resolvermos que o melhor é concentrarmos os miúdos em disciplinas “técnicas”. O saldo final é a produção de pessoas cujos exames de matemática são ridículos. Resultado final é o de miúdos cujo maior desconforto na prova de Língua Portuguesa foi o de terem de escrever uma dissertação sobre a Liberdade.
Formemos então fornadas de Médicos, Engenheiros, Doutores e Arquitectos completamente ignorantes, passivos e servis. Em Portugal como na China.

Aos que não têm a sorte (ainda assim) de completar os estudos superiores e que se deixam ficar pelos primeiros bancos de escola, a vida reserva-lhes pouco mais do que a subsistência à custa do cartão de crédito e ao acesso facilitado ao crédito que se oferece em cada esquina. Não façamos contas aos juros, o que interessa é quanto se paga por mês.
O trabalho não tem que ser produtivo. Interessa, sobretudo, cumprir regras e alimentar a máquina. Gerações e gerações de fogueiros, tem sido assim a vida laboral portuguesa, a imitar um pouco a das Forças Armadas que, para tão poucos soldados, tem tantos oficiais. A vida laboral funciona em circuito fechado. A tudo. Às ideias, à vontade de progredir, à assumpção do risco como oportunidade.
E ai do que reclame. A crise está aí para desculpar qualquer supressão de posto de trabalho.
O que interessa ao trabalhador comum, ao que aperta parafusos ou assenta tijolo durante todo o dia, ao que vira frangos na churrasqueira ou que insere caracteres sem fim num computador? A cidadania?
A cidadania do trabalhador comum é a que lhe é pedida pelos nobres deputados da nação: a da abstinência de opinião, a do seguidismo em tempo eleitoral, a do “não faças ondas” em tempo de poder – ou o inverso, que também serve. Ao trabalhador comum apenas se pede que tente pagar as contas ao fim do mês com a anedota de salário que recebe, e que pense onde há-de ir de férias, de preferência a crédito, para alimentar a máquina do sistema bancário, em tantas necessidades.
De resto, esqueçamos o trabalhador comum, por ora, que cousas mais altas se alevantam.

As crianças e os velhos vivem sem protecção especial. São as franjas mais frágeis da população e ninguém parece conseguir arranjar algo que realmente os apoie. O Estado-providência dos nossos descontos não ata nem desata, limita-se e remendar quando o mal está feito.
Velhos a sobreviver com pensões escandalosamente anedóticas, em casas arruinadas ou em “lares” onde são feitos prisioneiros. Miúdos a viver em casas sem condições, ou em condições sub-humanas, sem recurso a bens essenciais como os da alimentação saudável, para o corpo e para a mente – ou encerrados em instituições, máquinas dignas de um “The Wall”, onde são formados em ignorância, trabalho escravo, prostituição forçada ou voluntária e droga.
E por aí fora: saúde (a que temos, mas sobretudo a que não temos), segurança (a dos polícias mal pagos, mal instruídos, mal tratados), as forças armadas (subsídio-dependentes ao serviço do estrangeiro), a justiça (onde não se percebe o que é o quê, para que serve, se vai ser posto em prática e quando, a impunidade).
Portugal é, acima de tudo, o paradigma do “desenrascanço” – fica assim para agora, depois se vê se conseguimos resolver o assunto. E isto configura-se em algo mais grave.
Transforma este país num grupo de pessoas com o futuro permanentemente adiado, num grupo de gente dependente do todos os outros, cuja necessidade de sobrevivência as faz perder a consciência comum de nação.
Transforma Portugal num desequilíbrio de assimetrias entre o litoral e o interior, entre o Norte e o Sul, entre a riqueza mal aproveitada e esbanjada das principais avenidas das principais cidades e a paupérrima figura do esgoto a céu aberto passadas três ou quatro paralelas a essa avenidas.
Os deputados, com cornos ou sem eles, os governantes, com cornos ou sem eles, são somente responsáveis por transformarem Portugal no país que é agora: um país do terceiro-mundo, mas com televisão a cores e um Estádio da Nação.

É por isso que não ligo peva aos cornos que o Ministro da Economia ofereceu ao deputado. E é por isso que não concordo com os que dizem que esse gesto reflecte o estado da nação.
A nação não costuma ser assim tão sincera.
A estratégia de Manuela Ferreira Leite e do PSD não me parece ser estratégia alguma. Nem eleitoral, nem governativa.
O discurso tecnocrata da líder não convence os portugueses, especialmente no caso de vir o PS a fazer uma espécie de campanha semelhante, começando a relembrar o passado, “em nome da verdade”.
 1 | 07 | 2009
Falava-me o Álvaro, ainda ontem ao almoço, sobre as suas impressões acerca da escalada de Manuela Ferreira Leite na escadaria das sondagens de popularidade. Dizia-me ele que a líder do PSD tinha revelado um valente par de tomates ao chamar mentiroso a Sócrates e que essa estratégia se estava a revelar eficaz.
Por minha parte, disse-lhe que o PSD não tem estratégia e nem sequer faz campanha. Na minha modesta opinião, o PSD apenas faz contra-campanha, aproveitando-se das fragilidades discursivas de José Sócrates e restante governo e PS, das mais que badaladas controvérsias em torno de Freepóres, TVI’s, relações com os media, etc.
Digo isto porque me parece evidente que o PSD e Manuela Ferreira Leite se refugiam no contra-ataque, não deixando nunca antever qualquer opção realmente válida à acção governativa. Dali não sai nada, a não ser o mais completo vácuo de ideias, muito pouco próprio de um partido que pretende ser uma alternativa de governo.
De qualquer forma, as eleições legislativas entre o PS e o PSD assemelham-se a uma corrida de Fórmula 1, em que ganha o que cometer menos erros, já que viaturas as viaturas são extremamente parecidas tecnicamente e os condutores apenas diferem ao nível de execução técnica e resistência ao cansaço e aos nervos.
Falar de condições, por parte do PSD, para se constituir uma alternativa governativa na próxima legislatura é falar da condução de uma mesma viatura, num mesmo circuito, mas com um outro piloto. Quais as diferenças restantes?
Embalados pela derrota do PS nas eleições europeias, os laranjas parecem esquecer que não devem tomá-la como um dado determinante para as legislativas pois, apesar da sua importância ao nível psicológico, quer os objectivos das próximas eleições, quer o número de votantes, sugerem diferenças a ter em conta.
Neste contexto, seria enriquecedor ouvir de Manuela Ferreira Leite algo mais do que o constante apelo à verdade e a uma moralidade que apenas encontram paralelo na recentemente adquirida humildade de Sócrates. Seria bom, por exemplo, que a líder do que deveria ser o maior partido da oposição nos dissesse, linha por linha, quais as suas acções governativas, explicando detalhadamente o que se propõe fazer no campo das obras públicas, saúde, educação, trabalho e segurança, em vez de escutarmos diariamente os lugares comuns que debita para entretenimento das massas.
Os portugueses já sentem o que está mal. Agora, querem saber porque está mal e, muito importante, como corrigir. Do que nós estamos fartos é de ver governantes a desculparem-se com a crise e oposições a culpá-los desta. Verdade, verdadinha, estão ambos errados, estão ambos a gozar connosco.
Não compreendo por isso a continuidade de uma espécie de “estratégia de silêncio”, aqui e ali interrompida por um esgar salazarento da líder ou por mais um índice do situacionismo, agora ao vivo e a cores.
Pedro Passos Coelho, ex-candidato à presidência do PSD, pergunta, no artigo para o Jornal de Negócios, se «… verá o País como mobilizador e positivo um programa de reformas que implica, na maior parte das políticas públicas, uma orientação de efeito menos popular por implicar restrições adicionais?», perguntando ainda se «… mesmo supondo que a orientação a seguir fosse a de disfarçar um tal programa para supostamente não assustar o eleitorado, poderia um governo com esta orientação ganhar as eleições com conforto aritmético e conseguir implementar um programa para o qual não havia mobilizado claramente o País?».
É ele mesmo quem responde: «Não escondendo ao País que as reformas serão difíceis, falando pois verdade e apresentando um programa de acção ambicioso a pensar no futuro, pode tornar mais difícil o retorno eleitoral. Mas estará a cumprir um desígnio democrático muito importante que é o de oferecer uma alternativa não meramente funcional ou formal mas substancial, que não pode impor a Portugal mas que deve esperar que os Portugueses subscrevam e adiram. A melhor solução eleitoral é, assim, conseguir mostrar que um programa de reformas difíceis pode ser mobilizador e trazer, em simultâneo, a marca esperança.»
A estratégia de Manuela Ferreira Leite e do PSD não me parece ser estratégia alguma. Nem eleitoral, nem governativa.
O discurso tecnocrata da líder não convence os portugueses, especialmente no caso de vir o PS a fazer uma espécie de campanha semelhante, começando a relembrar o passado, “em nome da verdade”.
Para além disso, são visíveis as diferenças de postura da líder do PSD em relação a Sócrates no que aos principais temas “fracturantes” se refere, o casamento homossexual, o aborto, as relações laborais, etc., temas em que Manuela Ferreira Leite fica muito aquém do Primeiro-ministro em termos de sensibilidade humanista. E, parecendo que não, isso faz toda a diferença, não só na campanha, mas também, espero, na escolha.
Mas o maior problema no meio de tudo isto é o nível de expectativas em termos de governo e opções governativas. Em nome da verdade, convém dizer que são muito baixas. Venha das eleições o que vier, não é de esperar uma maioria absoluta. Considero, neste aspecto, que tal é saudável para a participação democrática dos representantes eleitos e, supostamente, do Povo que os elegeu. Mas, conhecendo as peças como conheço, tal será difícil.
Será, assim, uma legislatura de “caos democrático”, com entediantes debates parlamentares que não levarão a lado algum, excepto ao sublimar do funcionalismo público. Será mais uma legislatura, já sem Manuela Ferreira Leite, em que o governo governará e o principal partido do que deveria ser a oposição tratará de manter os lugares na Assembleia, sem nada a acrescentar ao debate democrático, excepto a retórica parlamentar para gáudio da assistência. Será a continuação da “estratégia do silêncio” apenas pontuada pela crítica óbvia sem um pingo de construção.
O problema parece residir na saída de cena da ideologia e na entrada do marketing político. Os partidos actuais não querem apostar numa ideologia, pois sabem que esta polariza a decisão. É por tal que preferem apostar num “ecletismo” de ideias, colocando-se ao centro e captando votos de todos os quadrantes.
 19 | 06 | 2009
A conselho do Rodrigo Saraiva, lá fui ler o artigo do José Marmeleira publicado na ípsilon de título “ O cartaz político é ainda uma arma?”. Cabe-me agora a mim aconselhar os que por aqui ponham os olhos a fazer uma visita, pois vale a pena.
Olhando o cartaz de Barack Obama, concebido por Shepard Fairey, sou levado a estabelecer algumas analogias. Este trabalho, para além das características semióticas que o objectivo da sua concepção impôs, tem todas as características de um ícone pop – não é demais compará-lo, por exemplo, aos ícones de Che, de Cristo ou de Lenine.
Como se explica no artigo, este cartaz traduz o esforço de Fairey em apropriar-se de imagens históricas, remetendo o ícone de Obama para os cartazes realizados durante o New Deal, com um pormenor acrescentado: este cartaz já não é tanto para a rua, mas para a Internet. No artigo são reproduzidas, a este propósito, as palavras de Mário Moura, crítico de design, que afirma: «De todas as apropriações da imagem de Obama, esta é a mais bem conseguida. Tornou-se mais oficial qe a imagem oficial. Agarrou naquilo que a campanha de Obama procurava transmitir, uma imagem de esperança no futuro, mas também uma nostalgia de uma América mais inocente e sensata.»
Este cartaz cumpre muito bem as leis da propaganda, à semelhança dos antigos cartazes que se viam em Portugal até inícios da década de 80 do século passado.
Mas então, o que se passou entretanto – sobretudo na Europa – para que este tipo de trabalho não seja já usado nas campanhas?

O problema parece residir na saída de cena da ideologia e na entrada do marketing político. Os partidos actuais não querem apostar numa ideologia, pois sabem que esta polariza a decisão. É por tal que preferem apostar num “ecletismo” de ideias, colocando-se ao centro e captando votos de todos os quadrantes.
É por isso que vemos outdoors de um tédio tremendo, cada vez mais iguais, onde a criatividade é nula. Vemos apenas um nome, um partido, um slogan e, invariavelmente, um ou mais representantes em pose de estado.
Esta situação é comum no resto da Europa que, recatada num mundo em que os políticos são de redoma – aparecendo nas feiras e nas tascas apenas em campanha – parece não querer desistir dos preconceitos em relação à comunicação política. Infelizmente, tal preconceito acaba por ser duplamente contraproducente: por um lado, retira qualquer rasgo de honestidade aos candidatos, colocando-os em poses nada menos que denunciadoras de falsidade; por outro, e bem mais grave, resumem numa figura o que é o espectáculo político – a falta de informação, de assumpção de ideologia, de assumir posições inequívocas, tentando conquistar aqui e ali os votos necessários à concretização do maior número de deputados possíveis, supostos representantes de um povo que nem sequer sabe porque os elegeu.
Neste mesmo artigo, a posição dos políticos portugueses e europeus parece ser corroborada por José Luís Garcia, sociólogo e investigador do Instituto de Ciências Sociais, que se baseia em Kracauer, sociólogo e crítico cultural alemão, para dizer, a propósito do cartaz de Obama, que «Ele prenunciava o torpor contemporâneo diante da inundação de imagens industrializadas e acreditava que esse fenómeno podia destruir os traços decisivos da própria consciência. Creio que este tipo de cartaz se inscreve nessa ideia de ornamento da massa, como uma espécie de padronização de coreografias e de traços», exemplificando: «Colocar a face do Obama em traços que poderia servir à representação de jogadores de futebol ou estrelas de cinema significa que estamos a assistir ao fim de fronteiras entre formas de cultura conduzidas por códigos banais e primários.»
Por outro lado, Mário Moura explica que «A falta de fé política está ligada a uma falta de fé no design. Se uma campanha usa design demasiado sofisticado é logo acusada de se preocupar demasiado com a imagem. O que acontece é que a maioria das campanhas são não apenas contra o design vistoso como contra o próprio design.»

Mas atentemos nas palavras de José Luís Garcia, que apresenta ainda uma outra ideia acerca da utilização de cartazes de carácter icónico mais marcante – ou a falta desta – na Europa: «O sistema político da União Europeia, e de cada um dos Estados europeus, não tem tendência para forjar personagens com a força mítica e icónica de um Barack Obama. A primeira porque a sua personalidade mais importante resulta de uma escolha feita pelos directórios dos partidos maioritários nas costas dos eleitores. E do ponto de vista de cada um dos Estados, por razões sociais e políticas de fundo, as oligarquias políticas europeias não permitem que possa surgir um jogador que, nesse terreno, pudesse restituir uma certa esperança nas transformações políticas. E se não aparecem jogadores, não podem aparecer estrelas da política ou um cartaz como aquele.»
Ora, quer isto dizer que estamos sujeitos a um cinzentismo cada vez mais patente na comunicação que tenta por todos os meios a pesca de votos sem compromissos ideológicos para com os eleitores.
Podemos, por estes breves parágrafos, verificar três situações que se resumem da seguinte forma – resumindo, de resto, este post – e que se prendem fortemente com a democracia. São sintomas inequívocos do estado da política.
Em primeiro lugar, o risco existente na banalização da imagem do político que sugere dois perigos: o da formatação ideológica dos eleitores e o da vulgarização do político resultante num rápido desgaste da imagem e consequente esquecimento rápido.
Seguidamente, o preconceito das organizações políticas quanto à utilização de assessorias de comunicação nas campanhas ou, no mínimo, a preocupação de não transparecer demasiada criatividade julgando ser esta causadora de uma percepção de falsidade junto do eleitorado.
Por fim, e mais importante, a possível confirmação de que talvez as duas situações anteriores não passem de um mito e que tudo se trata, afinal, de uma falta de honestidade para com os eleitores, disfarçada de moral – que é o que sabemos, especialmente no campo político onde a ética é uma batata.
Acabo com uma imagem simples, que me assalta a mente de cada vez que olho para a Casa da Música. Era naquele espaço, no tempo em que ali havia uma estação de recolha do STCP, que existia um mural, vários murais, até. Um tratava-se de arte, uma arte livre e descomprometida para com a própria arte. Outros murais eram os dos partidos que nos diziam quem eram, ao que vinham, ao que se propunham. Sem rodeios, sem cinzentismo, com coragem. Os cartazes eram iguais, os seus ícones reflectiam uma intenção inequívoca e eram eles, em muito, que faziam jovens como eu partilharem uma ou outra ideologia.
Perigoso? Sem dúvida. Honesto? Nem por isso. Bonito? De certeza absoluta.

A realidade é que, nestas eleições, não há vencedores. Pelo contrário, Portugal perdeu em todas as frentes ao fazer subir à posição de representantes legítimos do Povo junto da Europa um grupo de políticos eleitos por menos de metade da população.
 18 | 06 | 2009
Calculo que existam ainda muitos que, como eu, se recordam de um PCP com força e representatividade. Muitos outros, não só o recordam, como se mantêm nas fileiras da ortodoxia cujo tempo no cenário ideológico se situa algures entre 1917 e 1918.
Costumo dizer que eu, como muitos, fui comunista aos quinze anos de idade. Mas entretanto cresci. Devo confessar, ainda assim, que me custa um pouco olhar para o PCP, como me custa olhar para um velho no banco do jardim, na sua inactividade fruto da incapacidade de adaptação aos tempos que correm, perdido em memórias. Certo é que a situação do velho será diferente da do PCP, pois a sua vida regrada pelos tempos idos é a que a sociedade lhe soube oferecer. Quanto ao PCP, dá-me a impressão de viver numa redoma burguesa e conservadora, que afasta cada vez mais o partido dos que alegadamente representa.

E custa-me especialmente observar que o Comité Central continua a despejar ladaínha propagandista, desfiando a cassete do costume. Não há derrotas, o mundo proletário vence sempre pela força do PCP, venham eles. São nossos os amanhãs que cantam. É que, para mim, vir o comité dizer que se sente satisfeito com os resultados eleitorais (embora eu não saiba como há-de haver algum partido satisfeito com a miséria do número de votantes), será algo que a eles compete esclarecer - depende dos objectivos e da fasquia colocada. Agora, depois de esta força política ser relegada para o quarto lugar, vir dizer no Avante que «Nas muitas e muito ricas intervenções proferidas no decorrer da reunião do Comité Central da semana passada, foi vivamente sublinhado o ambiente de grande satisfação que se vive em todo o Partido, em consequência do magnífico resultado alcançado pela CDU nas eleições do dia 7», creio ser ir um pouco mais além no ridículo.
Em abono da verdade, quase todos os partidos, sem motivo que eu compreenda, cantaram vitória. Uns, porque subiram no número de votantes, outros porque cumpriram objectivos estratégicos, outros ainda porque ganharam uma oportunidade de corrigir os erros. Todos eles, cada qual à sua maneira, parecem ter andado na mesma escola, declarando vitória no meio do deserto.
A realidade é que, nestas eleições, não há vencedores. Pelo contrário, Portugal perdeu em todas as frentes ao fazer subir à posição de representantes legítimos do Povo junto da Europa um grupo de políticos eleitos por menos de metade da população. Mas convenhamos: se dizer que se ganha uma eleição com 11% do eleitorado é ridículo, dizer que se teve sucesso quando se perdeu o lugar no pódio é demais. E sinceramente: custa-me um pouco vê-los a envelhecer assim.
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