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Blogosfera | O Estatuto Blogger

Uma das principais objecções à constituição de um estatuto de blogger, código deontológico, directrizes éticas, ou o que lhe queiram chamar, parece ser o da possibilidade de limitação da liberdade de expressão e de pensamento.
Creio que essa é uma falsa questão e que, antes pelo contrário, a criação de tal código seria uma garantia dessa mesma liberdade.

Nunca se viu anteriormente tanta reacção negativa à prática do blogging por parte de todos os que teimam em conservar o poder da informação e comunicação nas suas mãos. Tentativas de supressão de direitos, eliminação de blogues, queixas e processos criminais, têm aparecido nos últimos tempos, tendo todos esses atentados à liberdade um denominador comum: o da pretensa falta de ética.
Por outro lado, a própria blogosfera contribui para a canibalização dessa liberdade, ao estruturar-se numa compartimentação ao sabor das influências, chegando por vezes mesmo ao ponto de ostracizar blogues que não fluam ao sabor da maré.

A minha ideia de código deontológico alberga determinados propósitos e objectivos que, a meu ver, poderão resolver alguns problemas com que os bloggers se deparam:

  • A criação de um directório de blogues socialmente responsáveis;
  • A consequente criação de um tipo qualquer de associação de bloggers;
  • A percepção pública da responsabilidade comunicacional da blogosfera.

BLOGUES SOCIALMENTE RESPONSÁVEIS

A prática do blogging é uma realidade que se fragmenta numa miríade de interesses, tantos quantas as motivações que cada blogger tem para investir tempo na concepção e publicação dos seus materiais.
Sabemos que existem blogues dedicados a bundas gostosas, assim como existem os que são dedicados às coisas divinas. Existem os blogues humanitários a par dos blogues nazis. Existem blogues de costura, panificação, berloques diversos, blogues sobre blogues, blogues sobre coisa alguma.
Todos esses blogues publicam sem a mínima obrigação de crédito aos direitos de outrem, de cumprimento de conceitos éticos básicos, de protecção das fontes que assim o desejarem, entre outras tantas coisas.
Este estado de coisas contribui para uma percepção pública da actividade que está longe ainda de ser a de crédito e reputação que grande parte dos blogues gostaria de obter.

Um blogger prima pela sua liberdade de expressão e de pensamento. É sua intenção, não somente a informação mas a opinião livre e descomplexada acerca do que lhe der na real veneta. E tal pode – e deve – ser conseguido mantendo o mais possível o respeito devido ao trabalho dos outros e à sociedade em geral.
Na minha opinião, o blogger é responsável por todo o conteúdo que o seu blogue apresenta aos públicos, da sua autoria ou de outrem, caixas de comentários e barras laterais incluídos.
A responsabilidade social exigida aos blogues deve ser directamente proporcional ao grau de influência que estes têm na formação da opinião pública.

É inevitável pensar no lugar que a blogosfera ocupa actualmente e não é ridículo considerar que a blogosfera se vai transformando, cada vez mais rapidamente, num meio de comunicação de massas, com a interessantíssima particularidade do hipertexto e da interactividade. E isso é o que eu considero um meio de comunicação, no verdadeiro sentido do termo.
A responsabilidade social advém dessa interacção com o meio circundante, meio esse que exige cada vez mais a garantia de uma reputação consonante com os seus critérios de transparência, isenção, liberdade e autonomia crítica.

Os bloggers que, de livre vontade, aderissem à constituição de um estatuto e cumprissem o disposto num código deontológico que observasse esses critérios estariam em condições de constar num directório que possibilitaria aos leitores a escolha da sua leitura, em condições de perfeita igualdade e não sujeitos a algoritmos de popularidade calculados por máquinas, ou à frequentemente perversa subida a pulso na aprovação dos restantes blogues mais influentes.
O código de conduta em questão teria como objecto apenas o cumprimento de regras básicas de publicação, não consistindo em nada que se pareça com uma censura a posteriori de conteúdos.
Assim, na minha opinião, deveria o referido código salvaguardar situações como as seguintes, apenas algumas entre outras tantas:

  • Referência das fontes
  • Atribuição de créditos
  • Protecção das fontes
  • Explicação da política de comentários

De fora deixo propositadamente as questões relativas a conteúdos de carácter racista, xenófobo, sexual, etc., por considerar que essa discussão carece de uma reflexão profunda, dependente de importantes definições do que se poderá conceber como pluralismo, liberdade de expressão, liberdade de pensamento, etc.

No fim de contas, o blogue socialmente responsável, aceitador voluntário dos princípios vigentes no código de conduta, porque respeitador da liberdade própria e do outro, seria apenas um blogue como outro qualquer mas com a particularidade de se constituir uma fonte reputada aos olhos do público em geral e das instituições em particular. Estas últimas teriam de encarar a blogosfera como algo que já ultrapassaria, de longe, a desorganizada população de publicadores, sem fio condutor e facilmente conotáveis com algo que, sabemos, muitos deles não são.

ASSOCIAÇÃO DE BLOGGERS

Os parágrafos atrás referem-se ao que poderíamos denominar de “certificação”, outro nome que origina desde logo algumas reacções negativas. No entanto, a partir do momento em que tal código se institua e haja bloggers que a ele adiram, não existirá outro nome melhor para a classificação dada aos seus blogues: “blogue certificado”.
Logo, a primeira pergunta que se coloca é “certificado, por quem?”
Uma outra questão em torno da certificação é a que se relaciona com a sua monitorização.
Logicamente, um blogue certificado deverá ser monitorizado regularmente com o objectivo de manter essa mesma certificação.
Logo, outra questão se coloca, “monitorizado por quem?”
Finalmente, de que serve aderir a um estatuto, cumprir um código, ser socialmente responsável, se à mínima coisa nos cortam o pio, sem apelo nem agravo?
Todas estas perguntas podem ser respondidas da mesma forma. Uma associação de bloggers.

Para além de, logo que se coloque em prática o referido código, esta se tornar absolutamente necessária, esta poderá também cuidar de outros assuntos, representando a classe ou os que a ela recorram.
Para além disso, ela é desde logo necessária para a discussão e elaboração desse código. Mas acerca disso falarei mais lá para o fundo.

Um ponto negativo em relação ao assunto: preço. Não estou a ver uma coisa deste género a trabalhar a ar e vento.

Mas gostaria de ir um pouco mais além nesta coisa da associação.
Conforme referi no início deste texto, são cada vez mais e mais bem produzidos os atentados à actividade do blogging.
Aparentemente, estamos a atingir um ciclo em que qualquer moita-florice serve de desculpa para o descrédito e para o “arquivamento” de um blogue. No mínimo, para uma carga de trabalhos a responder a e-mails, cartas, e a comparecer a audiências.
Se há coisa que saiu de moda foram as expressões tão em voga por alturas de 1974. E, se há uma que é verdadeira, é a de que “a união faz a força”. Não, não estou a falar de um sindicato. Ou talvez esteja, mas não no sentido clássico do termo.
Mas o que interessa aqui é a pressão na opinião pública que uma tal pressão conjunta dos blogues aderentes poderia fazer, em casos de bloggers injustamente acusados ou assuntos semelhantes.
Os jogos de xadrez ganham-se dentro dos tabuleiros, com as peças sujeitas a um número limitado de conjugações de movimentos. Como na sociedade, de resto.

Numa perspectiva mais mercantilista, devo dizer que tal associação, mediante a utilização de algumas ferramentas simples de difusão, poderia funcionar ainda como alavanca do panorama blogosférico luso. Já vejo alguns sorrisos aqui à frente, lá atrás, alguém dá mais alguma coisa?

A PERCEPÇÃO DA REPUTAÇÃO DA BLOGOSFERA

Os blogues existem para quê?
Existem várias visões acerca do assunto. Uns dizem que por causa dos leitores, outros que apenas a blogosfera os lê. Eu cá acho que existem para as duas coisas.
A julgar pelos resultados do meu, creio mesmo que não é, definitivamente, a blogosfera o maior consumidor das minhas tentativas de comunicação.

De qualquer forma, bloggers e googlers são leitores e consumidores de informação e são todos eles, enquanto tal, quem determina o sucesso ou fracasso de um blogue.
No entanto, esta determinação é originada, em parte, pelo juízo da reputação do blogue enquanto motor de informação, sendo este juízo influenciado por coisas externas, tais como os rankings do Google, as ligações e as opiniões de outros círculos blogosféricos.
Na realidade, um leitor que se desloque a um blogue pela primeira vez ver-se-á em apuros ao tentar concluir de as fontes que este utiliza para a sua publicação são idóneas, se as imagens ou sons que divulga carecem de direitos, se os artigos que publica são reproduções, impressões, opiniões, artigos originais ou nem por isso, etc.

Mais uma vez chamo para aqui a forma como artigos sensacionalistas de pseudo-jornalistas abordam a Internet em geral e a blogosfera em particular.
Fala-se de insulto, calúnia, anonimato, chegando ao ponto de apontar a utilização da blogosfera como ferramenta de terroristas, sem cuidados em não generalizar o termo.
Esta situação é de alto risco para a credibilidade da blogosfera.
Num recente seminário a que tive a oportunidade de assistir, a blogosfera foi, por assim dizer, relegada para um plano mais baixo que o mais vil tablóide por dois jornalistas e uma assessora de imagem de uma instituição pública. Mas fizeram-no de uma forma ligeira, evitando pormenores, sob o risco de, entrando por eles dentro, ficarem mal na fotografia.
Este tipo de ignorância, a que se pode juntar a tal ciber-exclusão, são fortes fontes de suspeita acerca do que se trata, realmente, esta actividade.
Mas esta relação com a blogosfera não é verificada somente nos circuitos da comunicação social. De uma forma ou de outra, agentes políticos e religiosos utilizam-na com meros intuitos propagandistas e proselitistas.
Outro factor que não é alheio à falta de credibilidade da blogosfera é a dificuldade que a maioria dos académicos vê a divulgação e partilha de conhecimento sem receber os almejados louros.

Assim, urge fazer algo que promova essa credibilidade e reputação.

ALGUNS PONTOS DE DISCUSSÃO EM TORNO DE TUDO ISTO

O primeiro ponto será, obviamente, esclarecer de onde viria tudo isto. Quem, como, onde, de que forma, sob que parâmetros, mandatado por quem.
Na minha opinião, devem ser precisamente os bloggers a decidir quem mandatar para a moderação do debate e possíveis conclusões, sob a forma de proposta a referendar.
O que nos leva ao segundo ponto, a estrutura exigida para um trabalho deste calibre. Bem entendido, um referendo a uma destas propostas, implicaria desde logo que os bloggers que nele participassem se identificassem como tal. E isso é um problema. Não o identificarem-se como tal, mas o darem o nome.
Os bloggers que optam pelo pseudónimo têm todo o direito de o fazer. Mas um pseudónimo não é um anonimato. Como tal, seria necessária uma inscrição devidamente identificada. Estou a imaginar violentas discussões em torno deste aspecto.
Mas tudo isto tem que ter um local. Claro que, tratando-se de uma coisa blogosférica, nada como um site com inscrição e voto. O problema está na manutenção e nos seus custos. Mais uma boa discussão.
Por fim, a quem apresentar esses resultados. Estou certo que nenhum de nós estará disposto a entregá-los à ERC, entidade caduca e moribunda. Então, nada resta senão a fundação de uma associação. E mais uma vez, a eleição dos órgãos constituintes e seus representantes. A sua forma jurídica, o seu enquadramento legal, etc.
E uma vez mais, custos, quotas, direitos e deveres. Mais um valente fórum.

Creio ser importante, e muito, pensar nos leitores e na sua participação no processo. Tentar desde logo uma aferição do que pensam eles acerca do assunto. Pegar nas listas de subscrições e fazer uma consulta, colocar votações nos sites e blogues.
E, por fim, perguntar-lhes o que deve ser feito. O que falta nos blogues, o que está a mais na blogosfera.
A não ser que queiramos continuar a viver fechadinhos num mundo virtual e a pregar unas aos outros.

CONCLUSÃO

Haverão decerto muitas críticas a esta exposição, muito poucas hão-de ver a luz do dia, dado não ser este o local ideal para uma grande difusão.
Mas disponham do espaço, copiem, façam barulho. E apresentem ideias, alternativas.
A revolução começa cá dentro. Nas nossas cabeças. E não há nada pior que o conservadorismo disfarçado de anarquia, o “laissez faire, laissez passer” que apenas resulta nas posição da avestruz ou em mais um blogue apagado do sistema.
Porque, quer queiramos, quer não, é de um sistema que se trata. Por isso, tratêmo-lo como tal.

Isto não é uma proposta. É uma reflexão em torno de uma proposta, melhor dizendo, em torno da possibilidade de uma proposta.
Pessoalmente, considero estar na hora de assumirmos o nosso papel na sociedade para a qual trabalhamos. E partilhar as responsabilidades de forma segura e frontal.
Não é, de forma alguma, qualquer espécie de censura, prévia ou posterior. Trata-se de cumprir o que penso serem as exigências mínimas por parte dos nossos leitores.
Trata-se de mantermos a nossa liberdade, de conseguirmos a visibilidade suficiente como movimento democrático e pluralista, salvaguarda da liberdade de expressão e de ideias.
E trata-se, sobretudo, de finalmente nos abrirmos ao mundo, sem complexos de espécie alguma, com a consciência tranquila de estarmos a contribuir de forma positiva e enriquecedora para o bem comum.

As discussões e informações em torno do assunto (projecto europeu e discussão tuga):

Mas certamente Que Sim!, Noticiare, O Lago, Ma-Schamba, Jonasnuts, PTBlogs, :fractura.net!, e noutros tantos locais que queiram anotar na caixa de comentários para se ir acrescentando a este post.

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3 Responses to “Blogosfera | O Estatuto Blogger”

  1. 1
    Mr. Steed:

    olha, eu não percebo nada disto mas se fosse no tempo do Salazar já estava tudo resolvido.

    http://mrsteed2.blogspot.com/2008/10/opinio-do-autor-deste-blogue-o-steed.html

    Para variar são só uns disparates. Mas a fotografia é gira.

  2. 2
    CJT:

    @steed: comentário paradigmático. já li, gostei, primeiro comentário acerca de sopa e vegetais já lá está. agora falta o outro. merece estudo, já lá vou outra vez.
    hasta.

  3. 3
    Regulamentação vs. blogosfera « Notas ao café…:

    [...] que tenho algo contra esta discussão; por princípio acho que tudo deve ser discutido e encontram aqui e aqui bons posts sobre este assunto. Por mim não vou escrever mais nada sobre isto, porque não [...]

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