Media | Adiamento da Morte

Chega-me pela mão do António Granado a pergunta: “Afinal, deve ou não anunciar-se publicamente a morte de alguém antes de notificar os familiares?”, relativa ao que se passou na NBC News, que adiou a notícia da morte do seu colaborador Tim Russert para que a família pudesse ser notificada, sendo ultrapassada pela concorrência televisiva em 40 minutos, e em horas pelo Twitter e pela Wikipedia. É pergunta pertinente, a puxar para questões éticas e deontológicas profundas, mas de difícil resposta.
Existem quadros diversos de divulgação da notícia de uma morte. Sabemos quem são os familiares? Sabemos se estes conviviam, estimavam, conheciam de facto, o falecido? Foi morto? Morreu como? Todas estas questões e mais uma miríade delas se formam muito rapidamente para conseguir atentar numa resposta simples e concreta.
A morte de alguém é, por princípio, uma notícia como qualquer outra, sob o ponto de vista informativo. Pode ou não ser importante. Mas é notícia, a partir do momento em que é como tal seleccionada para difusão.
Não vejo como será possível enquadrar mortes diferentes, de pessoas diferentes, segundo um critério que ditará se a família, supondo a possibilidade de confirmação da sua existência e interesse na matéria, deve ou não ser informada e se, só após isso, se deverá divulgar a notícia. Como se isso não bastasse, a velocidade dos novos media é incomparavelmente superior à dos media mainstream, no que à difusão respeita. De uma ou outra forma, alguém algures sabará que um fulano morreu e divulgá-lo-á, sem sequer pensar se existe famíla de defunto a quem avisar.
Por fim, creio que a notificação da família pertence ao foro das entidades competentes. Não pertence ao jornalista que, em vias de publicação, resolve acelerar o processo, notificando ele a família para em seguida dar a notícia, já agora, recheada com mais alguns condimentos proporcionados pela própria notificação. Sabemos que isso pode acontecer.
À pergunta que o António Granado coloca diria que - apesar do choque e da incontornável questão ética, que apesar da crueza e do sofrimento - sim, publicaria a notícia, dada a falta de algo que sustente a prática da escolha e da confirmação de toda a envolvente, de todas as relações e familiares do morto, em tempo útil.

June 25th, 2008 at
Eu inclino-me para a prática corrente dos meios de comunicação social: não se publica a notícia, enquanto não houver comunicação à família.
As televisões e as rádios, por exemplo, têm (muitas vezes) regras expressas de não identificação em directo de vítimas de acidente. Eu acho essa regra boa e acho que deve continuar.
June 25th, 2008 at
Olá António Granado, bem vindo!
Essa é realmente a solução ideal. Não creio, no entanto, que tal seja possível com tanta regularidade como isso.
Não estou a imaginar, por exemplo, que numa reportagem televisiva em directo de um local de acidente rodoviário, se possa contornar alguns factores identificativos das viaturas, ao declarar-se que os ocupantes pereceram. Logo, a família saberá, por hipótese, que as pessoas que iam naquele carro, que reconhecem, morreram.
Outros casos prendem-se com situações de catástrofe natural ou guerra. Outros ainda, com desconhecidos, sem-abrigo, etc. que, não possuindo identificação, poderão ser notícia sem a conveniente notificação prévia da família.
Conforme disse, correndo o risco de interpretações diversas da minha intenção, publicaria a notícia - «dada a falta de algo que sustente a prática da escolha e da confirmação de toda a envolvente, de todas as relações e familiares do morto, em tempo útil.»
Logicamente, se a possibilidade inequívoca de notificação existe, haverá que se notificar.
Afinal, neste turbilhão de informação, ainda não perdemos a humanidade… completamente.
Abraço,
C.
August 20th, 2008 at
[...] São, por isso, importantes as perguntas que Jorge Lopez propõe no “Desde el Lado Oscuro“, perguntas essas que, de certa forma estão relacionadas com outras que o António Granado colocava no “Ponto Media” e ás quais tive oportunidade de responder por aqui. [...]