O Noticiável

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31 Mar 2008

O Noticiável 

Regresso à base após uma semana de ausência. Verifico que, por motivos alheios à minha vontade, os posts que tive o cuidado de agendar para este período não foram publicados. Caprichos do WordPress que, de quando em vez, dá nisto; ou mais um sintoma da minha costumeira distracção - creio que isso agora não importa.

O que importa é que a notícia é o que era na semana anterior. Carolina Michaelis - o trema, a trama, ambos inexistentes -, a escola que parece, de repente, resumir todo o ambiente vivido nos estabelecimentos de ensino e os perigos de que se reveste a profissão de professor. E, atalhando, a coisa é simples: uma aluna vê-se a braços com a situação de ver o telemóvel confiscado e, violentamente, responde-lhe. A professora, apesar de toda a experiência profissional que possui, cai na esparrela e desce ao nível da aluna. Um outro aluno, munido da ferramenta necessária à publicação de imagem, faz a cobertura em forma de reportagem no local. Há imagem, há violência verbal e física, existem adolescentes embriagados pela circunstância, existe uma mulher em perigo, assiste-se ao descalabro dos valores que durante tanto tempo vigoraram e regularam a sociedade. Todos os condimentos estão lá, a audiência está garantida.

Há que prolongar a telenovela enquanto a coisa estiver a dar. Desdobram-se reportagens, opiniões, notícias diversas de escolas diferentes. São publicados artigos nos jornais, vindos das mais diversas proveniências. A blogosfera discute a coisa em peso. Jorge Coelho conta o caso de alguém que conhece, vitima de abuso na escola. Lamentavelmente, não existe registo de imagem. Não noticiável, portanto. Assim como o não são dezenas de outros casos por esse país fora.

Entretanto, as notícias aparecem com conclusões: os alunos irão ser transferidos, a professora começa a dar aulas, os telemóveis estão proibidos no Carolina Michaelis e sob o risco de serem confiscados. Os jornalistas estavam lá todos, hoje de manhã. Não sabemos o que aguardavam. Talvez nunca o saibamos e a notícia seja de que as aulas recomeçaram dentro da normalidade. Talvez umas imagens de alunos que dêem a opinião acerca do assunto, porque interessava sabê-la. Ou talvez não.

Ficam no ar algumas perguntas: o que é feito da geração multitasked e multiplexed tão sonhadoramente saudada? Porque é que o Carolina pode confiscar telemóveis e entregá-los à polícia ou a instituições? É legal? E se o é, é ético? E se o é, por que o é somente no Carolina? E vai ser essa a solução? Esgota-se aqui? Lamentavelmente não possuimos imagens que possam responder a estas e outras perguntas. Por estas horas, os jornalistas ainda hão-de estar à porta do Carolina.

Finalizo dizendo que, contra a opinião que me parece geral, as coisas no meu tempo também eram assim, esta situação também seria possível. Porque a juventude e a escola eram a mesmas, porque os adolescentes e os professores eram os mesmos. Só não havia telemóveis e os canais de televisão eram apenas dois.

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