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SADDAM HUSSEIN - UM ÚLTIMO ESPECTÁCULO À LAIA DE “PRÉMIO CARREIRA”

Nós sabemos quem foi Saddam Hussein. Sabemos que foi um personagem que irá ter o seu merecido lugar no panteão dos mais selvagens ditadores da História, a lado de Pol Pot, Hitler, Mao… e por aí fora.

Sabemos que a justiça aplicada a este tipo de gente não consegue, de forma alguma, suprir a necessidade que temos de ver as suas vítimas justiçadas. Porque os seus crimes foram demasiado graves para o entendimento humano, porque a maioria das suas vítimas foram selvaticamente torturadas e mortas, porque as suas vítimas estavam e estão em condições miseráveis que nem sequer as deixam ver com clarexa o que lhes terá acontecido.

O julgamento dos crimes de pessoas como Saddam Hussein é trágico. Revela, antes de mais, a fragilidade humana, a sua intrínseca limitação, o seu espartilho. Quando chegada a hora da verdade, o que é que, em verdade, fazemos? O que foi feito em relação a Saddam Hussein?

Saddam Hussein foi julgado e condenado à morte, foi executado. OK. Menos um. Mas as perguntas surgem, a resposta urge. Afinal, Saddam foi executado porquê, pelo quê? O que se consegiu fazer com tudo isto?

É que, reparem: sabemos que Saddam Hussein e os seus esbirros terão sido responsáveis pela morte de milhares de civis. E o que se provou em tribunal? Que foram responsáveis pela morte de uma centena e meia de pessoas. E de que forma foi isto provado? Simplesmente com recurso a uma alegoria de tribunal, a um espectáculo puramente mediático em que títeres representaram os mais diversos papéis sendo que, no final, o único títere que reflectiu alguma credibilidade quanto ao papel que desempenhou foi, tenebrosamente, Saddam Hussein.

Então, ficamos todos, aqui na primeira fila do espectáculo de uma execução pela forca, sossegados: justiça foi feita.

Mas não foi. A morte de um ditador não é justiça alguma. Especialmente quando é ditada de forma apalhaçada como o foi, especialmente quando o julgamento que a determina não é mais do que uma farsa. É claro que algo deveria ser feito, é claro que um monstro não pode passar impune mas, na realidade, o que foi feito para além do espectáculo?

A tragédia de tudo isto é que o que deveria ser justiça não passa, assim, de uma forma tenebrosa de espectáculo, uma qualquer comédia negra mal representada a que todos assistimos enquanto devoramos pipocas e, entre dentes, determinamos sabiamente “devíamos era queimar aquele filho da puta vivo, vê-lo a espernear feito tocha”, sem sequer nos lembrarmos que a justiça é uma coisa que deve ser levada em consideração. E por justiça entenda-se o sistema, os métodos que levam à acusação, prova de culpa, determinação de uma pena e execução desta. Tem que ser coisa transparente e honesta. O que aconteceu, na realidade, foi mais ou menos o que teria acontecido se fosse Saddam a julgar outros.

No fim, resta-me fazer ainda mais uma pergunta. O que vai agora acontecer ao Iraque? A Paz, finalmente? Como fica o Mundo? Em Paz, finalmente? Aprendemos alguma coisa com Saddam? Tivemos tempo para isso?

Não. Tudo continuará na mesma, Saddam pendurado por uma corda ao pescoço, balançará continuamente, corpo embalado pelos quentes ventos da guerra e da selvajaria. Os outros continuarão inocentes até que uma suposta justiça os enforque, uma vez que já não sejam necessários ou se tornem impecilhos. Tudo o que poderíamos aprender pelo estudo de algumas das mais tortuosas mentes dos nossos tempos foi borda fora num simulacro de justiça a confundir-se com necessidades mediáticas e com um sabor amargo de vingança e exemplo público.

Saddam já foi, quantos faltam agora?

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2 Responses to “SADDAM HUSSEIN - UM ÚLTIMO ESPECTÁCULO À LAIA DE “PRÉMIO CARREIRA””

  1. 1
    Guilherme Roesler:

    Carlos, repito tudo o que disseste nas linhas acimas e com um acrescimo: será que o Iraque irá conseguir manter-se democraticamente com a saida dos EUA? será que o Iraque conseguirá manter-se sem limpeza étnicas promovidas por um grupo religioso ou por outro após a saída dos EUA? uma coisa é fato: os EUA tem que sair do Iraque. A democracia é antipoda à intervenção de um Estado a outro. Acho que a um momento irá se tornar decisivo nesta historia toda, e este momento não é, para mim, a morte de Saddam, mas sim a construção da própria democracia que ainda não existe no Iraque.

    Abraços, Guilherme

  2. 2
    Arqueofuturista:

    Talvez seja pertinente criar um panteão para os “democratas”, sim, aqueles que utilizaram pela primeira vez campos de concentração e onde morreram mais de 25 mil mulheres e crianças boers, aqueles que despejaram as bombas incendiárias sobre Dresden, aqueles que lançaram as bombas atómicas sobre Nagasaki e Hiroshima, aqueles que têm o maior sistema carcerário do mundo com mais de 2 milhões de reclusos, muitos deles à espera de serem executados, aqueles que atacam estados soberanos como a ex-Jugoslávia, que se via envolta numa questão interna, enfim, aqueles que mentindo vão se passando por libertadores, por democratas.

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