Política | O Silêncio dos Inocentes
Manuela Ferreira Leite parece ter lido Saramago em época de Memorial do Convento, e ficar-se pela frase «De que adianta entoar cânticos ou louvar sermões, se talvez só o silêncio seja verdadeiro» - citação de exactidão dúbia, tanto quanto a memória que a traz -, sem se ter apercebido que Bacon já dizia há mais tempo que «O silêncio é a virtude dos tolos».
Mas as citações sobre o silêncio são tantas quantas as cabeças que o não sabem guardar ou, pelo menos, guardar-lhe o devido respeito. É que o silêncio exige uma gestão rigorosa, não sendo tão eficaz como isso a presunção de “tabus” tão caros a ministros, primeiros ou não, actuais ou passados, nem tão pouco a perda da oportunidade de se fazer ouvir no meio da cacofonia, aproveitando o facto de ser voz rara, como o fez agora mesmo a responsável máxima do que deveria ser o principal partido da oposição.
Ao exigir a demissão do ministro responsável das polícias, Manuela Ferreira Leite deixa escapar a janela de oportunidade para a quebra do jejum de palavras, actos e aparições de peso - não, não falo de Fátima nem do Pontal, há coisas mais importantes -, para deixar cair na praça pública algo que deveria ter pensado antes de comunicar.
Manuela Ferreira Leite deveria ter tido em conta que não é a demissão do ministro que irá resolver o actual estado de insegurança de que o país padece. Ferreira Leite deveria também ter-se lembrado das espectaculares superesquadras que o governo de que fez parte resolveu implantar, acabando com o policiamento de proximidade. Devia lembrar-se de muito mais coisas mas, a lembrar-se, parece ter dificuldade em exprimí-las.
Talvez um novo período de silêncio de Manuela Ferreira Leite seja realmente aconselhável. Digamos que até ao próximo congresso daquele que deveria ser o principal partido da oposição. Porque para emitir o mais deprimente vácuo de ideias, projectos e opinião, basto eu, e não sou pago para isso.
