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Opinião | Acerca do Gueto - O Aleixo e Mais Histórias

A verdade é que ninguém os quer por perto: os pretos, os ciganos, os pobres. São incómodos, trazem a miséria e a criminalidade com eles. Depois, que merece esta espécie de gente que anda a roubar, a passar droga, a prostituir-se, a vender contrafacção?

Opinião | Acerca do Gueto - O Aleixo e Mais Histórias

Eu vivi num bairro. Mas não era um bairro problemático. Era uma “urbanização”, uma “cooperativa”. No entanto, acima do meu bairro existia outro que, apesar de nunca ter constituído um problema, foi sempre olhado como algo exótico, um local onde viviam aquelas pessoas que “é ali que são felizes, entre eles”. E essa ideia abrangia todos os que lá vivessem. Bastaria a qualquer puto da escola dizer que vivia nesse bairro para passar a ser considerado um gajo perigoso.
A realidade é que, passados anos, toda a área estava cheia de “gajos perigosos”, estigmatizados desde logo na escola primária, construída no bairro, para eles e para mais ninguém, sendo extremamente difícil que algum dos putos desse bairro pudesse entrara noutra que não aquela, a não ser com uma “cunha”.
Hoje vemos que a gente desse bairro nunca chegou a sair de lá de dentro. E já vão em gerações.

Desde sempre existiu uma tendência da sociedade para arrumar as coisas problemáticas a um cantinho, de preferência resguardado da vista e do conhecimento. Já tivemos de todo o tipo de gente indesejável à vida saudável da urbe exportada para as ilhas, para as colónias, para os hospitais psiquiátricos, para as prisões do sistema: leprosos, criminosos, políticos contestatários, indivíduos pretensamente loucos, homossexuais, ciganos, judeus, enfim, de tudo um pouco que não se insira na prática da sociedade normalizada.
Os bairros sociais são disso um exemplo. A verdade é que estes bairros são um aglomerado de gente que escapa aos cânones tradicionais da sociedade e que, uma vez encerrados nos prédios construídos em locais afastados da urbe, são deixados numa espécie de autogestão, que continuará assim até que algo relacionado com banditismo ou qualquer comportamento anormal escape cá para fora. É nessa altura, em que algo do género escapa para o exterior do bairro, que estes passam a ser apelidados de “bairros problemáticos”.
O “bairro problemático” é, assim, uma subespécie de gueto, tratando-se do gueto mal comportado, o que não conseguiu manter as suas coisas, os seus hábitos estranhos de gueto, a sua miséria de gueto, a sua criminalidade de gueto, dentro de portas, longe da normalidade da vida que a urbe leva. E, quando nos aparece um gueto mal comportado, um tal “bairro problemático”, nas bancas dos jornais, nos noticiários da televisão, enfim, no circo mediático que nos atinge com a futilidade tablóide a que nos habituamos e que parece, mais que outra novela qualquer, alimentar a bovinidade característica de um povo que o deixou de ser, pensamos, talvez em coro, que “é preciso fazer alguma coisa”.
Creio que, quando pensamos ser preciso fazer alguma coisa alimentamos essa ideia com toda a convicção, muito sinceramente. Pelo menos durante os dez minutos seguintes. E durante esses dez minutos em que discutimos a coisa, somos capazes de delinear milhentas soluções, cada uma delas mais válida que a anterior. Essas soluções têm, normalmente um ponto comum: É necessário fazer isto, desde que fique tudo lá dentro e não transpire cá para fora. É preciso mandar para lá alguém que trate disto, que faça aquilo, é necessário que eles façam esta ou aquela coisa lá dentro, tem que se restaurar os prédios para que eles vivam bem, lá dentro. Lá dentro.

Os recentes acontecimentos verificados na Quinta da Fonte alvoroçaram o país: nunca, até então, se tinha visto uma manifestação de desacordo entre as partes de um bairro social. Logo apelidada de racismo, veio a dar razão à douta sabedoria popular que dita que «eles ainda são mais racistas que os brancos», que são mesmo «racistas entre eles».
O problema do racismo será verdadeiro? Tratar-se-á de racismo a querela entre negros e ciganos deste bairro? Existem opiniões para todos os gostos, umas mais ridículas que as outras mas, em todo o caso, igualmente válidas. O que se passa é que, aparentemente, existe um conflito entre gente de duas etnias. Se o que provoca o conflito é o facto de serem etnias diferentes, essa é outra questão. No entanto, uma vez mais, a coisa pode perfeitamente ficar por ali, desde que não extravase os muros do bairro.
Esta é mais uma situação em que, confrontados com o medo da sudação de gente estranha a nós, optamos pela solução cómoda, a da polícia. Na realidade, a polícia parece cada vez mais ser a cura para todas as maleitas, dizemos nós que “essa gente” tem o direito de viver em segurança e que, por tal, devemos enviar para lá mais efectivos.
É curioso que deixemos sempre nas mãos da polícia o rescaldo dos acontecimentos. Em nosso entender, a polícia não serve para prevenir, serve para remediar. E se alegamos princípios constitucionais de cada vez que a polícia aparenta violar um qualquer direito que nos é caro, já não nos coibimos de enviar elementos repressivos para um qualquer bairro social. Porque é necessário.

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OS ACONTECIMENTOS QUE SE OBSERVARAM EM FRANÇA PODERÃO VERIFICAR-SE EM PORTUGAL?

O sucedido em França tem poucas possibilidades de se ver repetido em Portugal, pelo menos a uma escala tão demolidora. Não é, no entanto, difícil que tal se possa verificar nos bairros mais degradados
Os bairros sociais “problemáticos” têm vindo a ostentar este carimbo como forma de dizer ao público que, se problemático, é algo acerca do qual se deve fazer alguma coisa mas que, porque problemático, representa em si um problema, logo é de difícil resolução, tenham paciência, vamos aplicando uns paliativos e a coisa há-de rolar, não se preocupem, que eles continuarão a sair de lá apenas para trabalhar ou arrumar carros.
Aparentemente, ninguém se importará muito que um destes dias o estado possa fazer algo semelhante ao que Berlusconi fez, ou que se passe a enviar apenas polícia de intervenção para os bairros, à semelhança do que se passa em França.
Assim, teremos o problema controlado, pelo menos durante algum tempo.

Alguém disse, em tempos, que a rebeldia é filha da submissão. Nada mais verdadeiro: só se rebela quem está submisso e, quanto maior a submissão, maior a rebeldia. Quando à submissão se junta repressão e estigmatização, a palavra de ordem é a revolta anárquica, a sede de destruição acumulada ao longo de anos, de gerações. É algo do género «alguém ter de pagar».
O que se passa nos bairros sociais é uma situação de barril de pólvora latente, com a particularidade de ser um barril de pólvora caracteristicamente nosso, que poderá dar uma espécie de explosão lenta. Mas, em todo o caso, talvez um dia ela aconteça e a reacção em cadeia se faça sentir. Creio que bastará um para os outros começarem também, já não a reivindicar, mas a fazer-se sentir.
Existem bairros que já não têm as mínimas condições de habitabilidade. Acerca desses, é usual dizer-se que «eles também dão cabo de tudo», generalizando-se assim a prática, desculpando-se assim a restante sociedade pela não intervenção em assuntos que “não são nossos”.
Mas existe agora uma outra consciência, a dos jovens que, bem ou mal, vão tendo mais informação do que os seus pais e avós, e que se vão juntando em grémios que, de uma ou outra forma, pretendem dar voz à consciência. Claro que, autistas às formas de comunicação dos jovens, vamos considerando simplesmente folclóricas as prestações de grupos hip-hop e às provocações pintadas nas paredes. Continuamos a não ligar, a ignorar, e a tornar a deixar as coisas serem tratadas “lá dentro”, manipuladas por quem quer que consiga tomar-lhes o pulso e redirigir a sua frustração para acções a ferro e fogo.
E teremos um destes dias uma chusma de sociólogos pagos à hora na televisão a dissertarem sobre o que se devia mas não foi feito, talvez a dissertarem acerca do que deveriam ter dito mas não disseram.
E enviar-se-á mais polícia.

Opinião | Acerca do Gueto - O Aleixo e Mais Histórias

O QUE FAZER, AFINAL?

Aqui há uns dias, num exame, tive que responder à pergunta «Quais os passos que tomaria para integrar os soldados das FARC na sociedade colombiana?». Escrevi, escrevi muito, mas não creio ter dito grande coisa.
O mesmo se passa em relação à pergunta «O que fazer em relação aos bairros sociais?».A resposta imediata que me sai da boca é «Acabar com eles».

Os bairros sociais são, em última análise, a definição do assistencialismo do estado, por oposição à solidariedade social. Embora sirvam o propósito do realojamento dos que dele necessitam, não responsabilizam os moradores e, com essa desresponsabilização, subtraem-lhes os direitos básicos de cidadania, aumentando a criminalidade na directa proporção em que lhes diminuem a qualidade de vida, conforme é sintetizado pelo Daniel Oliveira num parágrafo em que comenta Vasco Pulido Valente:

«Que eles colaboram para a criação de culturas de criminalidade. Que eles tendem a ser abandonados pelos poderes públicos e não facilitam a responsabilização (e a defesa dos direitos) dos seus moradores. Que o realojamento tem de corresponder a estratégias de integração social e de criação de direitos e deveres sociais. A pobreza, a mais profunda e que não está apenas ligada ao rendimento, não se resolve apenas com casas novas. Por isso, há uma diferença entre solidariedade social e o assistencialismo (no sentido em que o termo se aproxima da caridade), que muitas vezes corresponde a uma desistência do poder político.»

Daniel Oliveira fala ainda do que deve ser feito, opinião que partilho e que vai de encontro às medidas recentemente adoptadas por Rui Rio, em relação aos habitantes do Bairro do Aleixo: a integração destes no tecido da cidade é a única forma de solucionar o problema do gueto, de o eliminar.
No entanto, ee ainda de acordo com o autor do Arrastão, por detrás da aparente mobilização de Rui Rio para os interesses dos habitantes do Aleixo, parece estar um alegado caso de especulação, do qual o edil se aproveita para um populismo que começa a fazer parte da sua imagem de marca.
O meu problema, enquanto cidadão que reflecte acerca do assunto, não está tanto na prática do populismo enquanto fonte de resolução real destes problemas em concreto – a velha teoria de «uma mão lava a outra e as duas lavam a face» -, mas sim no facto de estarmos perante uma situação em que parece ser impossível tratar seja do que for sem que se possam tirar dividendos com isso.
Mas, ainda pegando na tal teoria das abluções, espero com alguma curiosidade o desenrolar do processo e estou, salvaguardados os motivos aparentes para tal medida, disposto a dar o benefício da dúvida, embora sempre com a pulga atrás da orelha.

A grande questão por detrás desta reinserção repentina é a falta de preparação adequada. Sabemos de realidades distintas, se não opostas: de um lado, os habitantes do Aleixo que, confinados ao gueto desde há muito, foram perdendo os laços sociais de que deveriam ter usufruído. Por outro, a cidade e os seus habitantes – se existentes – que terão que assimilar estas pessoas vindas de um local que a sociedade tem considerado um foco de criminalidade e que, por tal, só poderá gerar delinquentes que vêm, segundo os olhos dos que os acolherão como vizinhos, contaminar a boa vizinhança.
Este tipo de atitude só poderá resultar em repulsa dos que já lá estão, face aos que hão-de chegar. Aos mais cépticos ou mais bem intencionados, recordo o que se passou em Portugal, no período logo após o 25 de Abril, relativamente aos retornados.
Uma deslocalização (Abuso do termo? Talvez.) desta natureza não se pode fazer do pé para a mão. As pessoas ganharam raízes no local onde vivem, e embora muitas delas possam declarar querer sair dali – porque o querem -, a verdade é que terão alguma dificuldade em adaptar-se a outro ritmo de vida. Os mais jovens terão outros amigos, os mais velhos perderão os laços que os ligavam ao local onde construíram a vida.
O que quero dizer com isto é que não se pode, simplesmente porque se decidiu, mudar a vida das pessoas sem a devida preparação. Os putos continuam, por esta altura, a ir à mesma escola aonde iam. Vão mudar, provavelmente. As pessoas vão à mesma mercearia e irão mudar. E, quando uns e outros mudarem, o provável epíteto será algo do género “O António do Aleixo”, com toda a carga que daí advenha.
Claro que isto é tão inevitável quanto a má-língua mas acho que algo deveria ser feito ao longo do tempo, a partir de agora. Já.

Opinião | Acerca do Gueto - O Aleixo e Mais Histórias

SIM, SIM, JÁ ESCREVESTE MUITO E AINDA NÃO DISSESTE NADA. HÁ MAIS ALGUMA COISA?

Há.
Tenho ainda a dizer que, estando a viver em Portugal, um Estado de direito para o qual contribuo activamente com o meu trabalho e com os meus impostos, gostaria, por uma vez, de saber que estes foram devidamente aplicados, em prol do bem comum.
Claro que não me compete estar aqui a “dar palpites” acerca da governança- as minhas limitações neste campo são notórias . Não posso, no entanto, demitir-me da minha responsabilidade de cidadão privilegiado pela vida.

Creio ser da maior importância o acompanhamento ao que irá ser feito com os moradores do Bairro do Aleixo pois, sendo uma experiência de integração na cidade, poderá servir de estudo a posteriores acções do género.
Neste capítulo, gostaria de saber, por exemplo, quais as actividades paralelas à deslocalização propriamente dita, se existirá algum tipo de acompanhamento das famílias que irão mudar de rumo, se existe algum tipo de esclarecimento aos que irão, por decreto, receber novos vizinhos.
Gostaria ainda de saber se existirá algum programa especial para as crianças, no sentido de fazer desta integração um espaço de oportunidade de crescimento saudável.
Por fim, gostaria de ter a certeza, dada a indefinição de tudo o que se irá passar, a par de tudo o que se sussurra por aí acerca dos reais motivos para esta súbita mudança na vida destas pessoas, que tal operação não se tratará de pura operação cosmética e de que não existirão, no Porto, áreas de desenvolvimento de gueto, uma vez mais.

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9 Responses to “Opinião | Acerca do Gueto - O Aleixo e Mais Histórias”

  1. 1
    Paulo:

    É curioso todo este raciocínio. Mas talvez falte analisar uma outra vertente da situação: os bairros problemáticos é que contêm os ingredientes que os tornam problemáticos. É lá que vivem muitos dos que assaltam pessoas e destroem a propriedade alheia. Os habitantes dos bairros problemáticos (ou parte deles) é que se discriminam a eles próprios.

    A discriminação feita não é aos bairros “problemáticos” per se. A discriminação é feita à criminalidade. Eu, pessoalmente, não tenho nenhum problema em ter um cigano ao meu lado. Mas tenho muitos problemas em ter pessoas que: 1) pintam paredes de prédios, 2) fazem festas em casa aos berros até altas horas da noite, 3) consomem e passam droga gerando uma envolvente perigosa e que coloca a minha integridade física em perigo, 4) têm armas em casa e, volta não volta - as usam (nem que seja para dar uns tiros para o ar para festejar o ano novo).

    Acho que está a chegar a altura de acabar com esta “palhaçada” dos “coitadinhos”. Há pobres, há miseráveis, precisam de ajuda (mas também — note-se — há preguiçosos que não querem trabalhar mas isso é outro problema). Dar-lhes um apartamento no meio da cidade ajuda-os segundo alguns — mas ajuda-os em quê? E há que começar a distinguir os pobres e os misereráveis dos criminosos. Não são sinónimos. E são os últimos que não queremos por perto, não os primeiros. Nunca quisémos e nunca os aceitaremos. Não são integráveis no resto da sociedade pois recusam-se a cumprir as suas regras.

    E, na minha opinião, há algo que anda muito mal nisto tudo: fechamos os deliquentes em zonas da cidade não policiadas para viverem em auto-gestão. E chamamos pomposamente “bairro social” a essas zonas da cidade (assim em tom de coisa boa). Depois empurramos os pobres e miseráveis lá para dentro (não têm alternativa pois não?)

    Porque é que não se fecham os criminosos na penitenciária em vez de no bairro social? Parece-me muito mais simples e eficaz… e não sei se seria assim tão mais caro… mais seguro era certamente, mas a gente da política não pensa assim…

  2. 2
    Operário 04940:

    Caro Paulo, bem vindo.
    Vou tentar responder o mais detalhadamente possível ao comentário, que li com toda a atenção.

    «(…)os bairros problemáticos é que contêm os ingredientes que os tornam problemáticos. É lá que vivem muitos dos que assaltam pessoas e destroem a propriedade alheia. Os habitantes dos bairros problemáticos (ou parte deles) é que se discriminam a eles próprios.»
    É verdade que os bairros sociais contém todos os ingredientes e mais alguns para os tornarem problemáticos. Considerar as pessoas que os habitam e cujas atitudes podem ser criminosas como ingrediente, por si, para a criminalidade é que constitui um erro.
    Temos que considerar que as pessoas não vão para bairros sociais por serem criminosas. Estes não funcionam, nem devem, como local de isolamento ou reabilitação, as prisões existem para isso. As pessoas vão para bairros sociais porque, em determinado momento das suas vidas, a essa opção foram forçadas, pelos mais diversos motivos.
    O isolamento social, abandono e autogestão a que são votados esses bairros são, isso sim, ingredientes fantásticos para a criminalidade e consequente estigmatização generalizada dos seus habitantes que, como me parece lógico e creio concordares, não são todos criminosos.

    «A discriminação feita não é aos bairros “problemáticos” per se. A discriminação é feita à criminalidade. Eu, pessoalmente, não tenho nenhum problema em ter um cigano ao meu lado. Mas tenho muitos problemas em ter pessoas que: 1) pintam paredes de prédios, 2) fazem festas em casa aos berros até altas horas da noite, 3) consomem e passam droga gerando uma envolvente perigosa e que coloca a minha integridade física em perigo, 4) têm armas em casa e, volta não volta - as usam (nem que seja para dar uns tiros para o ar para festejar o ano novo).»
    Aqui há duas coisas que tenho a dizer. A discriminação não é feita aos bairros “problemáticos”, é sim feita aos seus habitantes. Existem bairros “problemáticos” de todos os géneros, inclusivamente nas zonas mais abastadas e in das cidades. A única diferença entre estes e os bairros sociais é o facto de as coisas não transpirarem para a restante sociedade, não “chocando” todos os que preferem alhear-se das realidades diferentes daquels em que confortavelmente vivem.
    A realidade diz-nos que, num caso concreto de procura de emprego, será dada primazia à candidatura de, digamos, um jovem da zona da Foz do Porto, em detrimento da de um jovem do Aleixo ou da Biquinha.
    Quanto ao resto, completamente de acordo. Também gosto de ambientes minimamente civilizados.

    «Acho que está a chegar a altura de acabar com esta “palhaçada” dos “coitadinhos”. Há pobres, há miseráveis, precisam de ajuda (mas também — note-se — há preguiçosos que não querem trabalhar mas isso é outro problema). Dar-lhes um apartamento no meio da cidade ajuda-os segundo alguns — mas ajuda-os em quê?»
    Os coitadinhos existem e, se se tratando de palhaçada, sê-lo-ão apenas aos olhos de um muito refinado sentido de humor. Que existem preguiçosos, também não é novidade, a acreditar nas recentes notícias em torno do número de usufrutos ilegais do rendimento mínimo, ou do que sabemos passar-se com os subsídios de desemprego. Falo acerca disto, é claro, sem querer estar agora a aprofundar das razões sociais e económicas que potenciam esta situação. Isso daria uma discussão inteira por si.
    Agora, quanto à pergunta «ajuda-os em quê?» relativa a dar-lhes um apartamento no centro da cidade, preferia que fosses tu a dar-me a resposta.
    Quais serão as vantagens em viver no centro da cidade?
    Aparentemente, existe por aí um preconceito mal resolvido em relação a quem consideras apto à vida na urbe.
    Mas, ainda que assim não seja, outra pergunta se impõe: de quem são as cidades?

    «E há que começar a distinguir os pobres e os misereráveis dos criminosos. Não são sinónimos. E são os últimos que não queremos por perto, não os primeiros.»
    Nunca o foram. Sinónimos, quero dizer.

    «E são os últimos que não queremos por perto, não os primeiros. Nunca quisémos e nunca os aceitaremos. Não são integráveis no resto da sociedade pois recusam-se a cumprir as suas regras.»
    Sim, eu também não gosto de ter criminosos por perto, como será de esperar. Mas, por outro lado, detesto ter miseráveis ao meu lado, assim como detesto tê-los noutro lado qualquer.
    Assim resolvo dizer, sem problemas de espécie alguma, que também não gosto de ter miseráveis por perto. Nem ao longe. Simplesmente, não gosto de miséria.
    Quanto à integração na sociedade, esta é extremamente difícil, mas não impossível. Devo recordar-te que ambas as pessoas, os criminosos e os miseráveis, têm uma extrema dificuldade de reinserção.
    As regras que lhes irão impôr serão, na sua maioria, novas no seu universo de relações sociais. Como tal, uma reaprendizagem de muitas das coisas básicas nessas relações é necessária. As escolas e os empregos servem para isso. E nós também.

    «E, na minha opinião, há algo que anda muito mal nisto tudo: fechamos os deliquentes em zonas da cidade não policiadas para viverem em auto-gestão. E chamamos pomposamente “bairro social” a essas zonas da cidade (assim em tom de coisa boa). Depois empurramos os pobres e miseráveis lá para dentro (não têm alternativa pois não?)»
    Já pensaste que talvez seja ao contrário, isto é: fechamos os pobres em bairros sociais e deixamo-los isolados até que se tornem criminosos. É mais lógico, não?

    «Porque é que não se fecham os criminosos na penitenciária em vez de no bairro social? Parece-me muito mais simples e eficaz… e não sei se seria assim tão mais caro… mais seguro era certamente, mas a gente da política não pensa assim…»
    Eles são fechados na prisão, pelo menos alguns…
    No âmbito geral, estou de acordo mas, pelo que me sugere o restante comentário que nos ofereces, não estou a ver-te a pensar na prisão como factor de reabilitação. Imagino-te a pensar nela como factor de punição e, se assim for, não estou de acordo.

    Enfim, à laia de conclusão, deixo-te o seguinte:
    Os bairros sociais não podem continuar a existir.
    As cidades estão mortas, de casas vazias que ninguém recupera por ser demasiadamente caro.
    As cidades são das gentes, de toda a gente.
    O Estado deve comparticipar a reconstrução dos edifícios em estado de degradação, compensar os proprietários e obrigar ao aluger destes por parte dos actuais habitantes dos bairros sociais.
    A integração destes nestes novos espaços deve ser acompanhada de medidas que providenciem educação aos mais novos, oportunidades aos mais velhos e, por fim, a plena integração nos usos e práticas correntes da responsabilidade para com a restante sociedade.
    Uma monotorização feita por responsáveis da assistência social torna-se, assim, necessária.

    Está na hora de deixarmos a ideia de que há gente de segunda irrecuperável, deitarmos mão à obra, e fazermos alguma coisa deles e desta cidade moribunda.

    Abraço,
    volta sempre.
    CJT

  3. 3
    Paulo:

    Olá,

    Gosto sempre de posições moderadas mesmo quando não sou eu que as defendo :) Aqui vão alguns comentários adicionais:

    1) Aceito a tua posição relativamente ao isolamento ser a causa da criminalidade e, consequentemente, se atacarmos a causa primeira e conseguirmos uma real integração das pessoas damos um golpe forte na criminalidade. Pelo menos a longo prazo.

    Mas, e a curto prazo? Como tratas a delinquência que se vive nesses bairros e que, imagino eu, atormenta grande parte dos que lá vivem? Aliás, calculo que sejam eles as maiores vítimas dessa delinquência…

    2) Quando falo em prisão não estou primeiramente preocupado nem com a reabilitação (honestamente, não acredito muito no sucesso embora reconheço que há algum) nem com a punição. Estou preocupado com aquela que é para mim uma das mais importantes funções de um estabelecimento prisional: proteger a população isolando os criminosos.

    3) Relativamente ao conceito de habitação social em si mesmo devo dizer que tenho uma posição um pouco dividida. Por um lado, reconheço a obrigação de ajudar os mais pobres e desfavorecidos: nem todos temos as mesmas oportunidades e quem teve mais tem obrigação de ajudar quem teve menos. Não é esse o principal conceito por detrás de uma sociedade? Apoiarmo-nos uns aos outros?

    Mas por outro lado aquilo que vejo nos bairros sociais é um absoluto desmazelo. Tratam as suas habitações pior do que qualquer um de nós consegue imaginar o que me leva a crer (e será este raciocínio um erro?) que não dão valor ao que recebem. E acredito que talvez não dêem valor porque não tiveram de se esforçar para o receber. Receberam-no porque a ele tinham direito.

    4) Por outro lado ainda não estou seguro - como disse anteriormente - que doar habitação lhes resolva algum problema real. Dar-lhes emprego sim, mas será que eles o quereriam? Posso estar a reflectir aqui alguma ignorância da realidade dos bairros sociais (pelo menos dos mais desfavorecidos) mas será que muita daquela população quer mesmo emprego? Eu nunca ouvi sequer falar de um cigano à procura de emprego. Se assim fosse, como é que estamos a contratar milhares de brasileiros e ucranianos como mão-de-obra não qualificada (e estou apenas a falar desses) quando temos milhares de desempregados nesses bairros? Será mera hipocrisia?

    Ou será que há algo mais por detrás desses bairros de “miseráveis”? Lembro-me de ser miúdo e de passar de autocarro pelo antigo bairro de lata da Musgueira em Lisboa e de ver barracas de ciganos (supostos pobres, miseraveis, etc.) com antenas parabólicas e mercedes à porta.

    Será tudo assim tão simplesmente um problema de discriminação desta gente que nós chamamos “de segunda”?

    Pergunto porque se tenho uma opinião clara face à criminalidade (admito que pode estar errada) não tenho em relação aos bairros sociais em si mesmo.

    5) E, para finalizar, gostava que desenvolvesses uma ideia que colocaste e que me parece interessante. Imaginemos que, em vez de construir estes bairros vergonhosos e que estão condenados à nascença, o Estado começava a arrendar casas dentro da cidade (espalhadas por aí) para alojar estas pessoas. Como te sentirias se fossem “parar” ao teu lado? Sentir-te-ias seguro? Se começassem a estender roupa nas janelas do teu prédio, se começassem a fazer trabalhos na tua garagem? Sentir-te-ias injustiçado por pagares uma renda ao banco e eles pagarem um valor mais simbólico? Conseguirias implementar um modelo destes sem uma revolta da classe média? E se fosse senhorio, arrendavas a tua casa para lá colocarem “desfavorecidos”?

    Um abraço,
    Paulo

  4. 4
    Operário 04940:

    Paulo:

    Antes de mais, algumas considerações em torno do interesse que o problema suscita.
    Verifico que, para além de alguns (poucos) blogues e uma ou outra notícia nos media, de carácter mais sencacionalista que outra coisa, o debate público em torno do assunto não tem sido nada digno de nota, antes pelo contrário.
    É por isso que as tuas opiniões (juntas a mais alguns e-mails que recebi) são muito bem vindas, por dois motivos: um, porque afinal há gente que debate; o outro mais egoísta, porque assim tenho a certeza que não estou a “pregar aos peixes”.
    Assim agradeço-te as visitas e as tuas opiniões.

    Agora, ao que interessa:
    Relativamente ao que se há-de fazer a curto prazo em relação à delinquência vivida nesses bairros, tendo em vista a integração social das pessoas no tecido urbano e social, devo dizer-te que não faço a mínima ideia do que há a ser feito.
    Esta minha ignorância é, no entanto, justificada pelo facto de eu não viver num desses bairros e de, da realidade deles, conhecer apenas o que me é dado a conhecer pelos meios acima referidos, em conjunto com o que me contam pessoas que aí vivem.
    No entanto, creio que a dita inserção no meio social é uma ferramenta em si, em conjunto com a oferta de oportunidades, educação e apoio social, nos casos de necessidade.
    Mas isto é escrito partindo da premissa de que os bairros sociais ditos problemáticos são autênticos viveiros de delinquência. E são-no, tanto quanto o são muitas outras zonas das cidades e periferias, à semelhança daquela em que vivo. E nesses bairros, como na zona em que vivo, verifica-se que, na realidade, a grande maioria das pessoas não são delinquentes.
    É que, Paulo, a generalização não convém nem neste, nem noutros casos.

    Quanto à função das prisões, bom, estou em desacordo completo. A função das prisões não pode resumir-se à da ilha de leprosos, tanto mais que muitos dos seus reclusos são pessoas muito válidas à sociedade, quer queiramos, quer não. Talvez isto seja de difícil compreensão mas, se verificares quantos reclusos aprendem profissões, acabam ciclos de ensino ou mesmo cursos superiores, isto poderá significar que, dadas as condições adequadas, este pessoal até faz algo pela vida.
    Creio que é esta, acima de todas, a função das prisões: não é isolar, não é reeducar, é simplesmente a de oferecer condições de mudança. para melhor, se possível.

    Tens razão quando dizes que quem tem mais deve ajudar quem tem menos. É uma das premissas básicas da sociedade, sem a qual os seus valores se desagregam, passando a ser apenas um amontoado de gente, muito à semelhança do que se verifica actualmente.
    O estado das casas, em desmazelo, é real. As pessoas que lá vivem, melhor: muitas delas, não têm a mínima consciência da salubridade, da decência, da vida em sociedade. Como em qualquer gueto, isolado e deixado ao abandono pela urbe. tal como nas “ilhas” do Porto ou de Lisboa e certos bairros de “má fama”.
    Lá estamos outra vez a discutir a necessidade de educação e integração.

    Os ciganos mais “carismáticos” não procuram emprego. Não precisam de emprego. Depois, existem ciganos honestos e outros que o não são. Uns vendem em feiras, outros vendem em esquinas. Tal como outras etnias.
    Olhamos com desconfiança para fulanos que se vestem de preto e falam de forma “estranha”, que se unem em actos corporativistas e que fazem o que muito bem entendem sem passar cartão às tropas. A questão é: esta frase refere-se a ciganos ou a advogados, por exemplo?
    Aquela dos mercedes e dos plasmas à porta dos barracos é um lugar comum e não leva a nada.
    A realidade em relação aos ciganos é que, cada vez mais, eles deixam de ser nómadas, não tendo necessidade de viver em barracos. Outra realidade é que ninguém tenta colectá-los e arranjar-lhes um número de segurança social e irs. Tudo o que se diga que se faz em relação ao assunto é simples retórica, logo desmistificada a partir do momento em que um empregado da segurança social vai a um bairro de ciganos escoltado pela polícia…

    A tua última questão é muito pretinente e reflecte o mau estar geral em relação a uma solução deste tipo.
    Naturalmente, a minha vizinhança cai-me no melhor ou pior agrado consoante o seu comportamento. Desde logo, qualquer pessoa que venha de um desses bairros habitar uma casa ao lado da minha terá, no mínimo, o benefício da dúvida. As minhas futuras atitudes em relação a ela serão somente o reflexo das suas. Não condescendo com ninguém, para mim somos todos iguais (embora tenha presente a frase de Orwell acerca do assunto a chamar-me, diariamente, á realidade…).
    Se fosse senhorio… eu nunca seria senhorio. Mas, se o fosse, faria como todos fazem: garantias de pagamento, uns meses de adiantamento, obras por minha conta, vistorias regulares por mim ou por entidade apropriada para o efeito. Como se diz aqui no Porto, “não há pão pra malucos”.
    Quanto à renda e à minha impressão acerca das diferenças: não é nada que não se passe hoje em dia. Ajudar é a quem precisa.

    Abraço,
    volta sempre.
    CJT

  5. 5
    ciencias:

    Na minha modesta opinião … existem pessoas a viver nesses bairros que nem o pão quem comem o merecem são pessoas que vivem ás custas de nos todos, que só têm direitos… uma autentica vergonha.

    Claro que existe a outra vetente pessoas tralhadoras e que querem sair da POBREZA e dar boa educação aos filhos…

    um abraço

  6. 6
    Operário 04940:

    Olá ciencias, bem vindo.

    Deves ter recebido um e-mail acerca da tua proposta.

    Adiante, acerca do teu comentário:

    Pelo que me é dado a entender, é o administrador de um blogue de ciências do consumo, curso do IPAM, instituição mais que reputada no que às ciências de comunicação empresarial concerne.
    Como tal, creio ser meu dever chamar-te a atenção para algumas coisas:

    1 - como administrador de um blogue cuja descrição atesta ser pertença dos «alunos do primeiro ano de ciencias do consumo (nocturno)IPAM 2007/2008» (sic), deves ter consciência de representares esses mesmos alunos que proclamam, assim, o que tu dizes por aqui. Se não é essa a ideia, poderás assinar em nome próprio, o que surtirá duas coisas importantes: passarás a expressar a tua opinião sem envolveres terceiros e, simultaneamente, passas a ter um nome (ou pseudónimo), como qualquer pessoa :-) 2 - Sendo, como és, aluno do IPAM e do curso que referes, aconselho-te a reveres a tua comunicação, em termos de conteúdo, de gramática e de evitares spam (já deves ter reparado que retirei o link que lá tinhas posto, o do nome de autor chega para o efeito…)

    De resto, já sabes: participa, aparece mais vezes.

    Um abraço,
    CJT

  7. 7
    patricia:

    Eu trabalhei num bairro problemático. Mais concretamente no Bairro da Bela Vista em Setúbal. Um gueto, onde são descarregadas e encaixotadas pessoas com varias carencias.. É um bairro bastante heterogeneo, sendo a sua população composta, principalmente, por pessoas de etnia cigana e africana. São etnias com valores sociais e costumes mt diferentes, são pessoas com um denominador comum: a pobreza.
    A pobreza não só monetária, mas a pobreza social, a pobreza de educação, a pobreza de valores sociais.
    Não basta terminar com os bairros sociais e realojar as pessoas no centro da cidade, no meio da sociedade, pessoas essas que sempre foram excluidas, marginalizadas pela propria sociedade. Como viver em sociedade se nunca fizeram parte dela? São gerações marginalizadas, (nao de marginais). Há que socializar, orientar, educar para que de facto se possam adaptar e inserir na sociedade. E isso começa com a aprendizagem de algumas regras e valores básicos da sociedade. EDUCACÂO.

    Quanto ao estigma de serem todos(ou quase) uma cambada de pelintras, malandros, traficantes, isso tenho a dizer meus amigos, existe em todos os estratos sociais. Há mt má gente por lá, pois há, conheci alguns. Mas há mts bons meninos da lapa de revolver em punho e nariz enfarinhado… já sei, a culpa é do preto/cigano/ do bairro social que o meteu nisso…

    É um assunto mt complexo pq estamos a falar de pessoas. Pessoas que nunca conheceram outra realidade, senao a realidade da marginalização, da exclusao, da pobreza. Não é desculpa para os comportamentos desviantes, criminosos que mts adoptam, mas é uma explicação válida. E já vai sendo tempo de se fazer alguma coisa.

    beijinhos

    p.s- já estou despreocupada ;))

  8. 8
    Operário 04940:

    Hi Pat!

    Pois é esse exactamente o problema, a eterna dicotomia entre o “nós” e o “outro” que, gajo estranho, veste assim, fala estranho, tem costumes muito esquisitos. Isso leva à estigmatização e à generalização higienista tão característica dos “bem intencionados”.

    Nem mais.

    Há uma coisa boa para ler acerca deste assunto, que é o espectacular artigo do Rui Tavares, acerca do qual hei-de debitar umas linhas, o «Um país quase imaculado». É que está mesmo muito bom.

    Quisses.
    CJT

  9. 9
    pat:

    Quando falo em socializar, em educar para que se possam adaptar à sociedade, nao quero com isso dizer que nao respeitemos a sua herança cultural, os seus valores,no fundo a sua identidade. Não é pegar neles, fazer-lhes uma lavagem cerebral, agora pensas assim, ages assim, falas assim, vestes as tuas melhores roupas ao domingo e vais-te confessar ao Padre…
    São antes “pequenas” orientações, para q se alterem alguns comportamentos, por exemplo:fazer fogueiras no meio da sala, fazer criação de patos, galinhas e até porcos na varanda, ou utlizar a banheira para fazer uma pequena horta…
    É transmitir conhecimentos que os possam ajudar a melhorar, a superar algumas dificuldades, mas respeitando sempre a sua identidade.

    beijocas

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