Blogosfera | Afinal, Os Blogues
adenda: estive agora a ler o post… desculpem os erros e a frase incompleta. foi escrito “de uma assentada” num cada vez mais raro momento de inspiração… ou whatever.
Tenho andado a ler as impressões em torno do IV Encontro de Blogues da UCP, e a impressão com que fico é a de que existe realmente vontade para que a blogosfera continue activa mas, sobretudo, um esforço dessa vontade no sentido de nos convencermos a nós próprios de que, em vez de uma cristalização, o que aconteceu foi uma mudança.
Os que leram o desabafo publicado abaixo, Blá-Blog, terão de imediato reconhecido uma qualquer influência directa do artigo do Paul Boutin, influência que, de resto, não existe. O que existe é, isso sim, uma confirmação do que já pensava há algum tempo, apesar de conseguir conservar algum optimismo. Mas diria, em Fevereiro de 2007, ainda no “proto-fractura”:
«Entendi algumas coisas, outras ficaram pelo caminho. Pelo caminho ficou também aquela inocência maravilhada com um novo mundo. É por isso que surge agora a fractura. Não que seja algo de novo, vou apenas juntar mais um blog a muitos que apareceram e desapareceram, incluir mais um espaço entre os milhões de espaços que diariamente surgem e morrem na blogosfera. É uma fractura, uma quebra, uma falha a exigir reparação.»
Graças ao Rogério Santos, tivemos acesso a um resumo das intervenções que, porque resumo, me deixa ficar a imaginar, antes de mais, o que perdi. Juntando estes resumos ao que por aí se diz, conseguimos um lote de reflexões que sugerem discussão, assim haja blogosfera que a faça. Comecemos pelo resumo e pelas intervenções que considerei mais significativas.
EARLY ADOPTERS
A Maria João falou da questão dos early adopters. Segundo ela, estes primeiros utilizadores terão tido, em tempos, a utopia da comunicação, da partilha. Mas acham-se agora membros de um clube aparte chegando mesmo, em alguns casos, a considerar os membros seguintes da comunidade como membros de uma outra categoria, os que não estão no “core” do blogging, que não o entendem como eles consideram ser.
O SPEAKERS’ CORNER
Lauro António parece-me um dos idealistas do blogging, pelo menos a fiar-me no curto resumo que visionei. Foi gratificante escutá-lo pois as suas palavras representam muito do que penso, que a blogosfera é, em si, um speakers’ corner e que, como este, passou de um local onde fazer declarações públicas em liberdade para, em muitos casos, uma feira de vaidades e, porque não, charlatanice. A ideia do speakers’ corner vem de trás e lembro por aqui o que diziam a Catarina Santos e o José Manuel Fonseca em Agosto de 2006, na revista Psicologia Actual, edição nº 6:
«A blogosfera substituiu o speakers corner de Hyde Park, a porta e as paredes da casa de banho, aquele monte no qual, e a coberto da noite, nas aldeias, se berrava em plenos pulmões os segredos de vícios privados que eram do conhecimento de todos.
Nesse sentido é um contexto verdadeiramente terapêutico com a vantagem de não provocar intoxicação química, nem excessivos gastos em psiquiatras e psicólogos.
É o maior espelho de Narciso conhecido.»
Talvez o que Lauro António nos diz acerca do bem e do mal do anonimato e da responsabilidade, da liberdade e da cultura blogger venha a confirmar o que por aqui era dito na altura.
A COLABORAÇÃO
Quem falou do assunto já cá tinha aparecido a dizer isso mesmo. Foi o Mário Pires que nos deixa a sua apresentação em post descritivo do encontro e por lá disponibiliza a apresentação que aqui deixo (sorry… no embed), pois falará muito melhor por mim do que eu próprio.
Na sua intervenção, o Mário Pires foca-se na necessidade de colaborações que poderão revelar-se uma forma de criação de qualidade. Chama-nos a atenção para a preguiça criativa. Mas chama-nos a atenção para algo mais importante: o carácter egocentrista da maior parte dos membros de algo que insistem chamar-se blogosfera. Ou não.
O FIM DA BLOGOSFERA
Esta pareceu-me ser a “catch phrase” do encontro, já que, de uma forma ou de outra, quase toda a gente me pareceu empenhada em provar o contrário. Naturalmente, as coisas terão começado em imensos sítios, mas foi o Paulo Querido quem iniciou as hostilidades, comprovando assim algo que ele próprio refere na sua intervenção: tinha que ser um A-list a provocar o buzz. E provocou, com um post (onde refere o meu B-list, entre outros, numa atitude infelizmente cada vez mais rara), e num artigo publicado no Expresso. Publica agora outro post com a apresentação feita no Encontro, outra que vos deixo (peço desculpa, de momento não consigo o “embed”) pelo mesmo motivo que deixei a do Mário Pires, o de falar por mim.
Se virem o resumo disponibilizado nos Indústrias Culturais, poderão ficar a saber, desde logo, alguns pontos de vista interessantes acerca desta visão das coisas. Na realidade, o Paulo foca a realidade da blogosfera, não só lusa, como talvez mundial. Uma sucessão de quintas e condados que se ligam entre si, deixam a maioria de fora e mantêm desta forma o seu espectro de influência. Fala-nos da diferença existente entre os A-list e os B-list e não se incomoda em declarar que existe realmente uma evolução trágica que tem vindo a favorecer a forma em detrimento do conteúdo.
Um outro aspecto importante que o Paulo Querido foca é a aparente necessidade da blogosfera em “ultrapassar” os media mainstream. A minha opinião pessoal é que, a acontecer, não será uma ultrapassagem. Será, isso sim, uma passagem. Como ele refere, existe uma nova forma de ligação muito em voga nos A-list: para além de se ligarem uns aos outros, ligam sobretudo aso órgãos de comunicação social mainstream. Isto, claro, com o intuito de obtenção de visibilidade e consequente manutenção de visitas. Para além disso, pessoalmente acho que é também uma forma de tentar “pertencer ao clube”, ao tal clube com quem, aparentemente, competiam.
E QUE DIGO EU?
Pois bem, começo por notar uma coisinha aparentemente sem importância mas, dado a detalhes como sou, não só consigo escrever posts extremamente chatos e longos, como consigo reparar em coisas destas: a escolha do nome do evento. Creio que chamar a um evento “Encontro de Blogues”, em vez de “Encontro de Bloggers”, é sintomático da importância que o blogue, em vez do indivíduo que o escreve, tem na chamada blogosfera.
Mas são pessoas quem escreve nos blogues, quem publica letras, imagens e sons. E as suas motivações diferem de uns para os outros. Existe, porém, uma coisa comum e básica em todos eles, a necessidade de comunicar.
E é de comunicação que se fala, não de informação. Essa parte da blogosfera que tende a informar simplesmente é precisamente a que se “põe a jeito” para ocupar o lugar reservado aos órgãos informativos. As definições mais conhecidas de blogue dizem-nos que este se resume a uma colecção de entradas por ordem cronológica, com recurso a plataformas colocadas na Internet e que utilizam recursos diversos, como o texto ecsrito, o vídeo e o som, para além do hipertexto. São, por assim dizer, uma espécie de diário.
Esta definição está prestes a alterar-se e conceitos como “jornalismo cidadão” ou “informação alternativa” vêm dar o mote a toda uma nova utilização da Internet e, particulamente, dos blogues. Blogues de jornalistas, de comentadores, de corporações são agora absolutamente normais. E indispensáveis à consulta diária de artigos e opiniões de experts nas mais diversas matérias.
Desta forma, uma actividade que se caracterizou pela utilização das massas, de tudo para todos, passou a ser uma espécie de mercado onde os nichos ditam as tendências para o mainstream.
A realidade mostra-se crua para qualquer B-list que tente adoptar uma posição, publicar uma opinião e que tente obter feedback ou simples leituras, não sendo esta aprovada pelos “pares”, de preferência A-list. Assim, está montado o círculo de influência que marca territórios, opiniões, enfim, está montada uma espécie de “agenda setting” na blogosfera. E ai do que a contrarie.
A BLOGOSFERA
É por isso que concordo com a ideia de que, mais do que assistirmos ao fim dos blogues, assistimos ao fim da blogosfera.
As condições que cito acima potenciam uma espécie de seguidismo - em alguns casos quase fanático - que contraria, mais do que o que idealizo para a blogosfera, aquilo que observei no seu início. Quase não há B-list que não lute por um “lugar ao sol” na barra lateral dos “gurus”, quase não há um deles que não acorra à caixa de comentários para dizer algo, uma coisinha que seja, que o faça ser efemeramente notado.
Desta forma, acabamos por ver a produção de ideias e a partilha de informação limitada ao que Fulano disse e Cicrano comentou, sem a opinião sincera de Beltrano que, publicando e republicando, assume um papel passivo de hiperligador e perpetuador da moda, não acrescentado ao que foi dito, sem saber sequer que tem, mais que o direito de contrariar, o de mudar de opinião. E que o blogue que mantém é dele.
Mas desenganem-se os que pensam que a A-list ou a B-list existem apenas baseadas nos números e índices dos motores de busca. Há uma miríade de redes e círculos de influência que, instalada que está, faz com que muitos B-list passem a A-list no seu círculo de influências mais limitado. E a perversão continua, de forma piramidal, do topo para baixo.
Isto não é nada que não se observe na sociedade em geral. De certa forma, retirada a possibilidade do anonimato ou da assunção de vidas puramente virtuais que em alguns casos chegam a chocar frontal e violentamente com a vida real, a blogosfera reflecte a sociedade física e palpável em que nos movemos, com todas as suas complexidades.
O facto é que A blogosfera já não existe. Existem uma quantas redes, existem uns milhões de bloggers, mas a independência, a produção de ideias, a defesa da liberdade, tomaram agora formas que se estabelecem em microcosmos de opiniões, de copy-pastes, de seguidores. Muito ao sabor da ditadura dos números.
O BLOGUE OPTIMIZADO
Não tenho nada contra a optimização dos motores de busca. Eu próprio utilizo algumas ferramentas SEO, isto se quero que alguém leia o que escrevo. E, se escrevo num blogue, é para ser lido pelo maior número de pessoas possível.
Mas o que observo é a tendência para, mais que acompanhar os novos hábitos de “leitura na diagonal” dos consumidores da Internet, procura-se a melhor forma de obtenção de visitas, nem que para tal nos abstenhamos da publicação de um conteúdo que queríamos de uma forma, adoptando a forma exigida pelas técnicas SEO. Existe, portanto, uma nova preocupação com a forma, antes do conteúdo.
Ora, eu considero isto uma autêntica perversão do que é o blogging. Passa a, em vez de produzir ideias e conteúdos, a produzir visitas. Este post, por exemplo, bem aproveitadinho daria para uns dias sem cá aparecer e, bem montado, originaria um determinado número de visitas, tanto vindas da leitura de RSS, como do Santo Google. E, supondo que alguém leria de facto o que escrevi, seria um sucesso. O problema está no facto de, mesmo que ninguém o lesse, ser um sucesso á mesma, segundo os ditames do Santo Google.
E à medida que esta estratégia fosse sendo consolidada, o fractura.net subiria na lenta escala do reconhecimento, seria um A-list com muitas visitas, reproduções, comentários, opiniões, ligações… à custa de nada parecido com conteúdo válido. Porque isso é possível.
Eu sou do tipo de blogger que aposta no conteúdo, venha ele de onde vier, seja ele publicado de que forma for. E se todos fossem assim, a riqueza seria decerto muito maior.
REDE SOCIAL
Dizem as regras que um blogue não sobrevive sem uma comunidade que o abrace. E não existe nada mais verdadeiro. O leitor tem um blogue que ninguém lê? Das duas uma: ou arranja forma de este ser lido, ou simplesmente apaga-o. Eu já fiz isso muitas vezes, mesmo muitas.
Mas a configuração de rede social mudou muito desde os IRC, os fora, os próprios blogues, os “blog rings”, etc. Um blogger tem que lidar agora com uma série de ferramentas como o Twitter, o Facebook, o Linkedin, etc. E, de cada vez que escreve um post, é obrigado a pensar que já não está a escrever apenas para uma plataforma, mas para múltiplas plataformas que vão já muito além do simples Feed RSS lido num agregador ou recebido no e-mail.
A rede social actual é, ainda, um aglomerado anárquico de “estou a…” de milhões de vozes. E, salvo algumas oportunidades reais de acompanhamento de situações complexas, parece-ma passar ainda a confusão porque passaram os fora em tempos idos.
Mas a coisa avoluma-se e o tempo, ele próprio, já não é o que era. Passa mais rapidamente e as actualizações são permanentes. Exigem demais para quem, como eu, é apenas amador do blogging - em todos os sentidos do termo - e a sobrevivência do blogue é posta em causa pela ausência de aparições nestes centros de mensagens.
Como o blogging e os fora, haverá de crsitalizar. E os problemas hão-de surgir. É normal. No fim de contas, como disse o José Orihuela, talvez se trate, afinal de evolução. Talvez, como refere, os novos media adaptem os conteúdos dos antigos sem, no entanto, os fazer desaparecer.
A COLABORAÇÃO
Para mim, não existe nada mais gratificante que a experiência colaborativa nos blogues. Estou completamente de acordo com o Mário Pires quando este aborda o tema como sendo de primordial importância.
No panorama actual, é quase impossível pensar nisso. É uma questão de egos. E, salvo raras e excelentes excepções, os blogues reflectem a vontade de um brilho pessoal do seu autor. Nada mais legítimo. Mas verifica-se, no entanto, que entre cisões e reuniões, alguns dos blogues mais representativos da nossa praça estão já a abraçar a modalidade, acrescentando, sem sombra de dúvida, uma mais valia à sua produção de conteúdos e, em algunsa casos, um salutar e necessário confronto de ideias, chegando mesmo ao desaguisado, entre autores do mesmo blogue.
E existe alguma coisa mais bonita do que isso?
Reparem: a minha entrada na TubarãoEsquilo foi mais ou menos o juntar o útil ao agradável - subir as audiências e, simultaneamente, figurar num painel. Quis considerar o site algo do género aproximado a um blogue colaborativo. E é o que se vê: embora exista da parte do Paulo e de mais um ou dois colaboradores, a realidade é que quase todos nós acabamos por nos marimbar para a TE que existe ainda, mas sem o fulgor inicial. Quantos de nós, nos nossos blogues, falamos regularmente dela?
Dá trabalho.
Como referi, tenho alguma experiência em blogues colaborativos. Sempre que sou convidado para um, aceito. E sempre que aceito, acabo por sair passado algum tempo. Porquê? Porque as pessoas que se iniciam nesse tipo de actividade incorrem em vários erros: acham que devemos concordar todos uns com os outros, não admitem ausências, como se um blogue tivesse cartão de ponto, e acabam por reparar que o blogue colaborativo começa, não raras vezes, a ter mais sucesso que o seu blogue. A estupidez é que, em vez de aproveitarem as sinergias, enchem-se de um orgulho parvo, e vão embora dar ao dedo para o seu “castelo”.
O FUTURO
Pertence-nos. O fractura.net! irá continuar. Em “modo banho-maria”, ao sabor das possibilidades. Quanto à blogosfera, como é actualmente, creio que está para mudar. Para onde, não sei.
O que sei é que cabe a nós, bloggers, essa espécie ainda estranha aos olhos de tanta gente, decidirmos o que queremos fazer de tudo isto e optar entre transformarmos a blogosfera numa simples câmara de ego ou numa ferramenta de partilha e aferição dos diversos estados culturais por que a Humanidade vai passando. Devemos decidir de o blogue do Zé não presta mesmo ou se apenas o ignoramos ou ainda se lhe “damos uma mão”. Devemos decidir se queremos deixar uma assinatura repetida a Xerox pelos milhares de sites, ou se queremos potenciar a discussão e o confronto de ideias.
Eu, cá por mim, estou numa situação confortável. Quase de certeza que ninguém leu este post até ao fim.
“Na verdade, e para mim, quando entro num blog, o que me entusiasma, o que me toca, o que mexe comigo, é ainda o poder da palavra. O domínio da palavra. A sabedoria da escrita. Textos que me fazem pensar. Ou rir. Me comovem. Me inquietam. Me arrasam. Me revoltam. Me tiram do sério. Me deixam a planar. Contra os quais estou. A favor dos quais me apetece assinar por baixo. Que odeio. Que amo. Que me lembram a ingenuidade. Que me acordam. Que me adormecem. Que me fazem uma festinha. Que eu beijo. Que me beijam. Que irritam. Que sim. Ou que nada. Mas é ainda o poder da palavra.
Especialmente – e voltando a uma polémica antiga… –, quando essa palavra não tem espaço nem tempo nos jornais, na rádio, na televisão. No futuro será diferente, estou certo disso – mas por enquanto é ainda a palavra. A palavra.”

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