SECÇÃO: democracia, opinião, política nacional, portugal

O ESTÁDIO DA NAÇÃO

Não ligo peva aos cornos que o Ministro da Economia ofereceu ao deputado e não concordo com os que dizem que esse gesto reflecte o estado da nação. A nação não costuma ser assim tão sincera. Os deputados, com cornos ou sem eles, os governantes, com cornos ou sem eles, são somente responsáveis por transformarem Portugal no país que é agora: um país do terceiro-mundo, mas com televisão a cores e um Estádio da Nação.
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É algo irónico que num local como a Assembleia da República, onde se digladiam retóricas e argumentos que não passam de mentiras e contra-mentiras, onde se esgrimam passados sem cuidar, verdadeiramente, do futuro, uma sessão acabe com a demissão do único elemento que foi capaz de um gesto genuíno. Argumentemos que se ultrapassou a decência que a solenidade impõe e que a Assembleia da República não é local de garraiada não esquecendo, porém, que não é somente na atitude histriónica que o desrespeito se verifica. Há-os bem mais acalorados e intempestivos, bem mais mal-educados e mal-intencionados em muitas palavras deixadas no habitual discurso de deputado e governante, embora escondidos sob a capa da regra que permite, na política, ir um pouco mais além do que na vida privada, no que à utilização do insulto e de expressões atentatórias da integridade dos oponentes. Na vida política tudo é permitido, desde que não se desça do patíbulo e se tome a linguagem da plebe. Apesar de concordar que a atitude de Manuel Pinho não se enquadra no espírito que considero desejável numa instituição que representa a vontade soberana do Povo – esse que aparentemente os elege -, sinto estranheza nas atitudes de virgem ofendida vindas da parte de protagonistas de algumas das mais bizarras peixeiradas a que pudemos – e poderemos – assistir. É especialmente preocupante que, de tudo o que (não) foi dito neste debate, a memória histórica vá apenas registar um par de galhos protagonizado pelo Ministro da Economia, em resposta a uma provocação que a bílis não soube aguentar. A verdade, essa entidade que ultimamente tem sido tão insultada por todos os quadrantes políticos, é que os debates parlamentares resumem-se apenas a propaganda e contra-propaganda, a acções que em nada dignificam a instituição e muito menos o Povo que esta pretende representar. O debate de ontem, registado sob o pomposo nome de “Estado da Nação”, teve o condão de falar de tudo menos do tema título. Na verdade, resumiu-se ao encadear de retóricas que a nada levam e que nem sequer conseguem definir qual é, na verdade – a tal – o estado em que o país se encontra. E qual é, afinal, o estado em que o país se encontra?

Nem sempre a suposta objectividade dos números consegue reflectir o estado de um país. O problema reside no facto de um país ser, antes de mais, as pessoas que o constituem, os seus recursos naturais, o ambiente que se vive. Há, no entanto, alguns números que reflectem um pouco mais a realidade do estado desta nação, os da abstenção e os da mais completa falta de interesse, não só pela vida partidária, como pela política em si. O que é normal, diga-se. O que os números não conseguem definir por si só é a desolação, a ansiedade, a depressão de um Povo cujo presente nada augura de bom para o futuro mais próximo e, quem sabe, para o mais longínquo, dada a incompreensão revelada pelos políticos em relação à sua realidade. O que se passa é que os políticos vivem numa espécie de redoma académica em que todas as teorias e experiências são permitidas, no contínuo sacrifício das cobaias que estranhas normas éticas não conseguem proteger. Estes políticos sabem que nos dias que correm a revolta destas cobaias é impossível, já que estas estão por demais endividadas, presas a compromissos que a possibilidade do desemprego e a malfadada crise colocam em risco. Falo de um Povo permissivo na sua desistência, o que esta gente do Estádio da Nação pretende representar.

Portugal é um país sem génio. Dependente política e economicamente da Comunidade Europeia e restantes países “amigos”, Portugal não consegue resolver os seus assuntos de forma rápida e segura. Qualquer problema existente, que geralmente implica gastos, apenas tem resolução possível com mais uma injecção de dinheiro vindo de fora. Como um cão que tenta morder a cauda, corremos em círculos. Pedimos dinheiro emprestado para pagar empréstimos. Os empresários já há muito deixaram de acreditar no investimento. À crise respondem da forma mais fácil, com a redução de custos – leia-se de gastos com pagamentos de salários -, não sendo estranho a esse facto o decréscimo da inflação ser acompanhado de um decréscimo muito maior dos valores dos vencimentos pagos pelas empresas. Os atropelos aos direitos dos trabalhadores é constante e assinado por baixo por quase todas as organizações políticas que remetem a defesa dos trabalhadores para os sindicatos senis que continuam a fazer o papel de porta-estandarte de ideologias que a História tratou de, há muito, denunciar.

A educação portuguesa é feita em escolas mal equipadas, por professores mal pagos, obedecendo a programas educativos facilitistas, numa espécie de “no child left behind” americana, o tal programa que tantos ignorantes tem oferecido ao mundo. Assim, Portugal tem a oportunidade de colaborar, também, na espécie de Nova Idade Média em que o Mundo se encontra, em que se distinguem as coisas entre Bem e Mal, valores especificados por regulamentação e campanhas de (des)informação. A produção académica faz-se, também ela, numa espécie de redoma, apesar das tentativas de Mariano Gago no sentido de ligar as universidades ao tecido empresarial e, assim, fazê-las produtivas. Os que, acabado o curso, revelam alguma inteligência e rasgo empreendedor, desde logo apanham a primeira caravela que os leve a novos mundos. E por lá ficam. O mundo educativo transformou-se num permanente circo de “Novas Oportunidades” e Magalhães, numa utopia em que todos somos doutores, nem que seja à força, nem que sejamos todos doutores em Ignorância, com todos os pós-doutoramentos que a vida nos vá oferecendo. Falamos então, do quanto é necessária a avaliação dos professores, da forma como esta deve ser feita, de quem há-de fazê-la. Falamos da sua resistência a esta. Falamos sobre sindicatos cujos representantes têm tido um protagonismo sem igual, sem no entanto contribuírem um pouco que seja para a resolução definitiva do problema. Não falamos, por outro lado, dos programas educativos completamente desajustados à vida e que apenas apostam nos “desafios actuais” e na “saída profissional”, deixando de parte a formação de cidadãos livres e pensantes, colaborantes com a coisa pública. Deixamos cair o ensino da Filosofia, da História e da Arte para discutirmos se havemos ou não de leccionar Moral Religiosa e Educação Sexual, depois de resolvermos que o melhor é concentrarmos os miúdos em disciplinas “técnicas”. O saldo final é a produção de pessoas cujos exames de matemática são ridículos. Resultado final é o de miúdos cujo maior desconforto na prova de Língua Portuguesa foi o de terem de escrever uma dissertação sobre a Liberdade. Formemos então fornadas de Médicos, Engenheiros, Doutores e Arquitectos completamente ignorantes, passivos e servis. Em Portugal como na China.

Aos que não têm a sorte (ainda assim) de completar os estudos superiores e que se deixam ficar pelos primeiros bancos de escola, a vida reserva-lhes pouco mais do que a subsistência à custa do cartão de crédito e ao acesso facilitado ao crédito que se oferece em cada esquina. Não façamos contas aos juros, o que interessa é quanto se paga por mês. O trabalho não tem que ser produtivo. Interessa, sobretudo, cumprir regras e alimentar a máquina. Gerações e gerações de fogueiros, tem sido assim a vida laboral portuguesa, a imitar um pouco a das Forças Armadas que, para tão poucos soldados, tem tantos oficiais. A vida laboral funciona em circuito fechado. A tudo. Às ideias, à vontade de progredir, à assumpção do risco como oportunidade. E ai do que reclame. A crise está aí para desculpar qualquer supressão de posto de trabalho. O que interessa ao trabalhador comum, ao que aperta parafusos ou assenta tijolo durante todo o dia, ao que vira frangos na churrasqueira ou que insere caracteres sem fim num computador? A cidadania? A cidadania do trabalhador comum é a que lhe é pedida pelos nobres deputados da nação: a da abstinência de opinião, a do seguidismo em tempo eleitoral, a do “não faças ondas” em tempo de poder – ou o inverso, que também serve. Ao trabalhador comum apenas se pede que tente pagar as contas ao fim do mês com a anedota de salário que recebe, e que pense onde há-de ir de férias, de preferência a crédito, para alimentar a máquina do sistema bancário, em tantas necessidades. De resto, esqueçamos o trabalhador comum, por ora, que cousas mais altas se alevantam.

As crianças e os velhos vivem sem protecção especial. São as franjas mais frágeis da população e ninguém parece conseguir arranjar algo que realmente os apoie. O Estado-providência dos nossos descontos não ata nem desata, limita-se e remendar quando o mal está feito. Velhos a sobreviver com pensões escandalosamente anedóticas, em casas arruinadas ou em “lares” onde são feitos prisioneiros. Miúdos a viver em casas sem condições, ou em condições sub-humanas, sem recurso a bens essenciais como os da alimentação saudável, para o corpo e para a mente – ou encerrados em instituições, máquinas dignas de um “The Wall”, onde são formados em ignorância, trabalho escravo, prostituição forçada ou voluntária e droga. E por aí fora: saúde (a que temos, mas sobretudo a que não temos), segurança (a dos polícias mal pagos, mal instruídos, mal tratados), as forças armadas (subsídio-dependentes ao serviço do estrangeiro), a justiça (onde não se percebe o que é o quê, para que serve, se vai ser posto em prática e quando, a impunidade). Portugal é, acima de tudo, o paradigma do “desenrascanço” – fica assim para agora, depois se vê se conseguimos resolver o assunto. E isto configura-se em algo mais grave. Transforma este país num grupo de pessoas com o futuro permanentemente adiado, num grupo de gente dependente do todos os outros, cuja necessidade de sobrevivência as faz perder a consciência comum de nação. Transforma Portugal num desequilíbrio de assimetrias entre o litoral e o interior, entre o Norte e o Sul, entre a riqueza mal aproveitada e esbanjada das principais avenidas das principais cidades e a paupérrima figura do esgoto a céu aberto passadas três ou quatro paralelas a essa avenidas. Os deputados, com cornos ou sem eles, os governantes, com cornos ou sem eles, são somente responsáveis por transformarem Portugal no país que é agora: um país do terceiro-mundo, mas com televisão a cores e um Estádio da Nação.

É por isso que não ligo peva aos cornos que o Ministro da Economia ofereceu ao deputado. E é por isso que não concordo com os que dizem que esse gesto reflecte o estado da nação. A nação não costuma ser assim tão sincera.
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