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Posts tagged ética empresarial

Comunicação Institucional #2 | O Papel da Organização na Sociedade Actual: Ética Empresarial, Filosofia Moral, Problemas Relacionados

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a partir de Daniel Scheinshon, [série: comunicação institucional]

Nos tempos actuais verificam-se algumas modificações no cenário em que as organizações actuam, cujos factores constituem importantes gatilhos para a crescente importância da comunicação organizacional, a par de uma redefinição do papel que estas crêem ter na sociedade
O público exige agora transparência e honestidade ao mundo organizacional, podendo ser considerado que as organizações se deparam com, pelo menos, três fontes de pressão:

  • Os desenvolvimentos tecnológicos que mudam rapidamente o contexto em que a organização actua;
  • A globalização da economia; e
  • A exigência à organização de comportamentos éticos pelos mais diferentes sectores da sociedade.

A sujeição das organizações a estas fontes de pressão pode ser representada graficamente:

A EXIGÊNCIA DE COMPORTAMENTOS ÉTICOS

Os teóricos das ciências empresariais não parecem, até à data, ter conseguido dar resposta aos complexos dilemas éticos com que os gestores se deparam diariamente.
Durante a década de 1970 surge a fulgurante disciplina de ética empresarial, cujos princípios contrariavam a teoria segundo a qual “a ética comporta benefícios”, declarando que a ética e os interesses podem estar em conflito.
Os académicos sustentavam que as motivações de um gestor podiam ser de origem altruísta ou de interesse próprio, mas nunca por ambas.
Actualmente nasce uma nova ética empresarial que reconhece e aceita a complexa teia de motivações interligadas.

Para além das centenas de cursos de ética empresarial leccionados em 90% dos cursos das escolas empresariais dos EUA e dos 16 centros de investigação que confirmam o prestígio desta cátedra, algumas investigações levadas a cabo no final do séc. XX revelam que mais de três quartos das grandes corporações dos Estados Unidos incluem esta temática no seu seio, sendo esta bem recebida pelos gestores que agradecem qualquer ajuda concreta que os auxilie a ultrapassar os principais desafios que enfrentam:

  • Identificar formas de actuação éticas que possam ser aplicadas em situações localizadas na “zona cinzenta” das condutas que não são nitidamente correctas ou incorrectas; e
  • Como se movimentarem nas situações em que, apesar de a forma de actuação ser correcta, as pressões competitivas externas e corporativas “desencaminham” muitos gestores bem intencionados.

Apesar disso, até há pouco tempo a disciplina da ética empresarial não dava resposta a essas duas áreas pois muitos dos teóricos falavam de uma moral afastada das preocupações reais das pessoas que têm a seu cargo a tomada de decisões. Felizmente, nos últimos anos tem vindo a verificar-se uma inversão nesse desfasamento com um número considerável de teóricos a debruçarem-se na investigação a partir das necessidades próprias da actividade de gestão.

FILOSOFIA MORAL E ÉTICA EMPRESARIAL

Os defensores da responsabilidade social afirmavam, desde as décadas de 1960 e 1970, que se a curto prazo a conduta ética pode provocar danos nos ganhos imediatos da organização, a longo prazo, o mercado acaba por premiar essa conduta, isto é, “a ética produz benefícios”.
No entanto, sempre existiu a dificuldade de explicar aos gestores porque deveriam ser éticos, a par da explicação acerca de que forma poderiam eles determinar uma forma de actuação ética e, ainda assim, manterem-se à frente ante as pressões da concorrência.
Com a intenção de responder a esta pergunta apareceu nos anos 70 a nova disciplina de “ética empresarial”, que introduzia a matéria de “filosofia moral” nas escolas empresariais, que supostamente traria conhecimentos teóricos e ferramentas úteis para que os gestores pudessem discernir a acção mais apropriada quando confrontados com uma dúvida de origem ética. Lamentavelmente, tal não ocorreu.
O problema residia no facto de ser a filosofia moral uma disciplina que atribui um elevado valor a tipos de experiências e actividades onde não exista um interesse próprio, pelo que os seus teóricos, uma vez mais longe de dar um passo na direcção dos problemas morais do mundo real, tornaram a andar às voltas em torno da pergunta fundamental: porque devem os gestores ser éticos?

Os teóricos da ética empresarial discordam do princípio segundo o qual “a ética produz benefícios” pois, segundo eles, a ética nem sempre coincidem com os interesses da organização, chegando mesmo a afirmar que quando “fazer bem” coincide com os interesses da organização, os actos motivados por esse interesse próprio não podem ser éticos.
Querem dizer com isto que, na realidade, a ética empresarial implica actuar nos negócios impulsionados por razões que não pertencem ao mundo dos negócios.

O PROBLEMA DESTAS LINHAS DE RACIOCÍNIO

O problema destas duas linhas de pensamento reside sobretudo no facto de ambas terem sido levadas ao extremo.
No caso do conflito entre a ética e os interesses, a dúvida dos gestores não reside na determinação da ocorrência desses conflitos. Os gestores querem saber como geri-los.
Infelizmente, os teóricos não têm oferecido um auxílio capaz em relação a esta dúvida.

Estes teóricos devem começar a pensar seriamente nos custos e benefícios que, por vezes, comporta o “fazer correctamente” e devem ajudar os que estão encarregados de avaliar situações difíceis, em que cada uma das alternativas de resolução representa um custo moral e um custo financeiro.
Da mesma forma, nas situações em que não existe conflito entre a ética e o interesse, devem ocupar-se do “paradoxo da motivação”, já que a etiologia das condutas da maioria das pessoas se trata de uma complexa mistura de interesse próprio, altruísmo e outras influências.

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Estado Cultural | Big Brother Is Watching You!

Aqui há uns meses, em Abril, publiquei a notícia acerca do despedimento de Pedro Jorge, o sindicalista que resolveu intervir no programa “Prós e Contras” de 28 de Janeiro, denunciando algumas práticas da empresa que representava. Vejo hoje que o processo disciplinar que a empresa lhe instaurou resultou na suspensão do Pedro Jorge pelo período de doze dias, resultado que o trabalhador irá contestar no Tribunal do Trabalho. Fiquei a saber desta notícia pela Liliana Fernandes que, no seu “Gosto e Contragosto“, a 13 de Agosto, oferece link para a notícia publicada no “Público” a este respeito.

A dar umas voltas pelo blogue da Liliana, deparei-me com dois posts que me chamaram a atenção. O primeiro, intitulado “Desculpem!“, pede desculpas por um tal texto publicado no blogue, de título “Ditadura em pleno século XXI“, a «todas as pessoas que trabalham naquela empresa, com especial incidência pela pessoa que a dirige, pois, de facto, é de uma qualidade humana que em nada se coaduna com o que foi escrito», pedindo novamente desculpa a todos pelo seu «acto irreflectido e impulsivo».
Mais acima, no seu último post, datado de 14 de Agosto à semelhança do anterior, Liliana publica o título “Ditadura em pleno século XXI retirado“, texto em que insiste em desculpas, desta vez «pelo mau estar e sofrimento que causei».
Curioso, como os demais, fiquei a pensar que acto irreflectido e impulsivo terá sido esse que tanto mau estar e sofrimento causou a todos, especialmente à pessoa dirigente, de tanta qualidade humana. Em que consistiria o post, e porquê tanto desvelo nas desculpas?

Segundo Luís Rainha, a Liliana cometeu uma imprudência ao escrever sobre o ambiente laboral de uma empresa, tendo sido despedida da Comunicasom. Conforme explica Rainha na caixa de comentários do 5dias (21 de Agosto, 16:26), esta terá o processo de despedimento em curso, tendo sido de imediato enviada para casa.
Rainha oferece ainda o link obtido na cache do Google, com o texto original entretanto apagado, cuja leitura revela que a sua autora poderia estar a falar de qualquer empresa, de qualquer trabalhador, não especificando nomes, locais ou qualquer outra identificação de quem, onde ou quando. Falou apenas de uma realidade que caberá num sem número de empresas e organizações. E foi, por isso, sujeita a processo.

Na realidade, o texto que a Liliana escreveu, poderia muito bem ter sido escrito aqui, dado ser este blogue também dedicado à comunicação institucional, pelo que seria um bom texto a caracterizar uma situação que, de uma ou outra forma, tenho vindo a criticar.
Mas o que se passa é que não fui eu a escrevê-lo e a publicá-lo. Foi a Liliana que, à semelhança do Pedro Jorge, está em maus lençóis apenas po ter falado.

Adenda: o Paulo Querido escreve também acerca do assunto, esclarecendo mais um pouco a situação num post, também ele, a revelar o choque por toda a situação. Oferece-nos ainda mais alguns dados sobre o assunto:

O problema da Liliana não foi ter escrito inocentemente uma verdade que se aplica a centenas de empresas e directores sem conhecimento das tecnologias de comunicação e da realidade social e funcional que a Internet levou aos locais de trabalho.
O problema da Liliana não foi ter preferido escamotear o nome da empresa — Comunicasom.
O erro da Liliana não foi, como se diz já na blogosfera, ter acreditado no que lhe pediram, retirado o post e emitido desculpas, depois de um enfurecido Manolo a ter insultado aos gritos no meio das instalações, segundo me contou.
O problema da Liliana não foram os maus colegas que se apressaram a tirar partido da situação, enterrando-a para ficarem bem vistos perante o patrão — a Liliana, como os colegas, vai aprendendo na pele as leis da selvajaria a que chamamos pomposamente de “mercado de trabalho”.
O problema de Liliana não é o Sindicato dos Jornalistas ter para oferecer solidariedade, compreensão, apoio jurídico e pouco mais.
O problema da Liliana é ser nova e descartável.
O problema de Manolo Bello é o coração dele.

Não transcrevo o texto da Liliana por respeito à sua decisão e o link acima acabará por não surtir efeito. Do que a Liliana fala é, bem entendido, de comunicação empresarial, pelo que utilizarei o seu texto apenas como guia para algumas impressões particulares acerca de alguns promenores que achei interessantes.

***

(…) aqueles senhores que andam sempre de um lado para o outro, que têm 1001 reuniões por dia, que têm um telemóvel XPTO e que não vão de férias porque se fazem de insubstituíveis, aqueles que se dão o nome de directores (e nem a própria vida sabem dirigir!), (…)

Na realidade, haverão uns não sei quantos indivíduos que pensam isso mesmo de mim: ando sempre de em lado para o outro, tenho - não direi 1001 por dia - bastantes reuniões, o telemóvel, embora não seja XPTO, é da empresa, assim como o carro, novinho em folha e, se não XPTO, pelo menos XP, ambos para uso total. Férias é quando posso, como qualquer outro, estando obrigado a gozá-las integralmente por exigência da organização que tenho a honra de representar. Não sendo director, sou daqueles tipos que andam de fato e gravata, todos os dias de trabalho normal. E perguntar-se-ão tantos que me vêem a passar por eles, várias vezes ao dia, ou a saír de carro para não sei onde, de laptop às costas: «o que é que aquele gajo faz cá?». Outros tantos, arriscarão dizer que eu sou «mais um que anda para aí sem fazer nada, a ‘mamar’». Outros ainda hão-de me culpar pelo seu descontentamento em relação a vencimentos e outras regalias, dizendo que, «claro, para uns andarem por aí de carrinho a passear o dia inteiro e a falar ao telemóvel, outros têm que trabalhar e produzir!»
Esta é uma situação criada, acima de tudo, pela falta de conhecimento objectivo do trabalho dos outros. Também eu penso da mesma forma acerca de outros que vejo, com carro ou sem ele, de fato ou não, de macaco ou não, de esferográfica ou malho. Vejo-os por ali, a fazer não sei o quê. Que farão eles?

Considerando as organizações um tecido vivo, constituído pelas células que cada um dos indivíduos representam, não existe motivo para que cada um de nós não saiba, exactamente, o que o parceiro do lado faz. No entanto, grande parte das organizações aposta na compartimentação das pessoas, por oposição ao que poderia constituir uma sinergia e, importantíssimo, um factor de implicação dos colaboradores.
Esta situação é prejudicial à vida de uma organização que se quer viva e inserida na sociedade envolvente, sendo característica de alguns tipos de gestão: a de “carácter militar/religioso” e a que perfilha a divisa “dividir para reinar”.

Estou também convencido que, na maioria das organizações e empresas, se fizermos um “workshop” dedicado à comunicação interna - e externa -, começando por colocar algumas perguntas escritas às chefias e aos colaboradores acerca de alguns assuntos que considero básicos, obteremos resultados surpreendentes.
Perguntemos, pois:

  1. Às chefias
    • Qual é a função do Colaborador “X”?
    • Que trabalho desenvolve ele diariamente?
    • Quais pensa serem as expectativas do colaborador em relação à Organização?
    • Quais pensa serem as expectativas do colaborador em relação ao seu futuro na Organização?
    • Quais as suas expectativas em relação ao Colaborador “X”?
    • Em que medida pensa melhorar o trabalho do Colaborad?
  2. Aos Colaboradores
    • Qual é a função do Responsável “X”?
    • Em que lugar do organograma as desenvolve?
    • Que trabalho desenvolve ele diariamente?
    • Quais pensa serem as expectativas da organização em relação ao Responsável “X”?
    • Quais as suas expectativas em relação ao Responsável “X”?
    • Quais pensa serem as expectativas do Responsável “X” em relação a si?
    • Quais as suas funções?
    • Que trabalho desenvolve diariamente?
    • Quais as expectativas da organização em relação a si?
    • Em que medida pensa poder melhorar o seu trabalho?
  3. A ambos
    • Qual é a Visão da Organização?
    • Qual é a Missão da Organização?
    • Quais são os Objectivos da Organização?
    • Qual a Estratégia da Organização?
    • Quais os Públicos da organização?

Aos que pensam, com toda a razão, que estas perguntas são básicas, garanto que as respostas obtidas darão, sem dúvida, para alimentar um moderador ao longo de várias sessões. E, atrás destas, outras surgem, de carácter cada vez mais profundo.
Estas respostas constituem, no entanto, um excelente ponto de partida para a implicação de toda a Equipa no Objectivo comum, orientado pela Visão e pela Missão da Organização, obedecendo à sua Estratégia. E todas estas componentes deverão ser completamente conhecidas, compreendidas e apreendidas pelos sujeitos que compõem o tecido organizacional.

Não é possível a uma Organização actual obter efeitos positivos ao nível da sua Imagem e Identidade apreendida pelos públicos externos, se esta não tiver umá origem bem alicerçada na Comunicação Interna e no Relacionamento entre todos os indivíduos da Equipa.
Assim, cabe à gestão das organizações a concepção de um método eficaz do aproveitamento dos diversos canais de comunicação, mediante a concepção de uma estratégia que os integre nos seus objectivos: reuniões, workshops, comunicações regulares, enfim, todas as possibilidades de conhecer e dar a conhecer o trabalho que está a ser feito por cada um dos departamentos e indivíduos que compõem a organização, não só irá fazer com que cada um deles conheça o trabalho do parceiro que está a seu lado, como os fará “remar todos para o mesmo lado”. Para além disso, possibilitará a toda a Equipa um perfeito conhecimento do pulsar da vida da organização que representam, a par da importância da sua actuação face aos outros e à organização em si, bem como o reflexo de toda esta convergência na Imagem e na Identidade dessa organização e, em última análise, os efeitos de tudo isto nos resultados do trabalho da Equipa.

(…) resolveram banir o messenger da empresa. O motivo…não foi claro. Contou-me que falaram em consciência e blá blá blá, mas assertivamente não o disseram.

A liderança de um gestor passa, em grande medida, por saber comunicar as suas decisões e objectivos aos seus colaboradores. Um trabalhador tem necessidade de compreender as ordens que deve cumprir dentro de um contexto lógico que se enquadre na sua compreensão da estratégia da organização. Assim, uma ordem ou decisão dada a um trabalhador, não lhe sendo explicada, poderá originar um descontentamento que por vezes tem influência na produtividade do indivíduo e consequente peso nos resultados da Equipa.

Desta forma, todas as decisões que afectem directamente o trabalho do colaborador devem ser convenientemente comunicadas numa pequena reunião para o efeito, caso se trate de uma decisão para a equipa, ou mediante uma pequena entrevista com o colaborador, caso se trate de uma decisão que só a este afecte.
Nestas conversas, a decisão ou ordem deve ser apresentada explicando em que medida se enquadra na estratégia e objectivos da empresa, desde quando será aplicada e quais os resultados esperados pela sua aplicação, assim como os riscos que tal poderá comportar, se caso disso for.

A implicação dos indivíduos na estratégia e nos objectivos da organização passa pelo conhecimento completo dos motivos e dos resultados esperados pela tomada de uma decisão. Com esta medida, poderemos também observar que a coesão do grupo aumenta, sendo de esperar que os objectivos da decisão sejam alcançados em comum. Caso esta decisão não seja comunicada de uma forma transparente e cuidada, poder-se-á correr o risco de descontentamento da Equipa e consequentes formas mais ou menos declaradas de rejeição da decisão tomada.

(…) soube que, antes desta medida, espionavam (sic) as conversas que as pessoas tinham e com quem tinham. Queriam, até, saber o conteúdo das conversas. Houve alguém que bateu o pé e disse que não ia espionar (sic) os colegas. Como em tudo na vida: “não fazes tu, outro há disposto a fazer isso”. Bem dito, bem feito.

Nada mais normal. Embora a redacção do texto revele o choque relativo a esta constatação, a realidade mostra-nos que quase todas as gestões procuram saber o teor das conversas que correm dentro e acerca das organizações ou, em alguns casos, até mesmo de carácter mais ou menos pessoal. Trata-se de uma forma de obter informação acerca dos mais variados interesses que possam afectar a vida da organização ou a posição do gestor. Este tipo de informação é tanto mais válido quanto a posição do gestor seja precária, caso em que este se vê obrigado a fazer política.

Por outro lado, quanto ao facto de existirem pessoas da Equipa que espiam os colegas para dar a informação ao gestor, bom… também é normal.
Pelos motivos mais diversos, existe sempre alguém disposto a fazer o papel. E é prática corrente existir um elemento que é “os olhos e ouvidos” do gestor, sendo mesmo essa prática aconselhada nos manuais de gestão. Veja-se, a título de exemplo, o que vem acerca do assunto no livro “Gestão das Organizações”, de Sebastião Teixeira, um dos manuais mais utilizados nas Universidades portuguesas.

Esta medida não pode, no entanto, tornar-se opressiva ou repressiva, para salvaguarda dos interesses de privacidade dos indivíduos, a par dos interesses da organização, que não devem conotar-se com um controlo exagerado dos trabalhadores.

Enfim, viam as janelinhas de conversa abertas e nem tentavam saber do que se tratava e de quem se tratava. Tiravam as suas próprias ilacções e, “democraticamente”, resolveram banir o msn do local de trabalho. Nem lhes passa pela cabeça que quem não quer trabalhar (o que, garante-me, não era o caso) não o fará na mesma. Arranjará outros pretextos, outras distracções. A internet é um mundo. Existem milhares de motivos que desviem a atenção das pessoas.

Chegamos, enfim, ao cerne da questão. A utilização de meios e canais de comunicação internos e externos, pelos colaboradores.

Ao longo da minha vida de trabalho, de há 28 anos para cá, tenho tido acesso às mais variadas ferramentas de comunicação interna e externa. No meu primeiro emprego, em 1980, os computadores eram algo de ficção científica. Para que se possa fazer uma ideia mais aproximada da tecnologia eu eu utilizava na época, bastará saber que se usavam máquinas de calcular “FACIT”, manuais, de manivela. Estas máquinas eram as utilizadas pelos caixeiros. Os “empregados de escritório” usavam já máquinas electrónicas tipo “CASIO”, um avanço tecnológico impressionante. Dirão vocês: «devias trabalhar num antro, não?…» Não. Eu trabalhava numa das maiores empresas (creio que mesmo a maior) do ramo automóvel.
No entanto, apesar das óbvias limitações tecnológicas, nunca me foi negado o acesso a qualquer tipo de meio de comunicação, antes pelo contrário. As instalações tinham intercomunicadores espalhados pelo edifício, para conversas públicas: pedidos de informação de stocks, preços, etc.; cada um de nós tinha um telefone atribuído, com ligações internas e externas; existia um correio interno que possibilitava o envio da mais diversa correspondência, empresarial ou privada. Mais: era possibilitada a leitura dos principais jornais diários e, pasmem!, existia mesmo uma pessoa cujas funções incluiam o iniciar o trabalho diário pela leitura de jornais.

Actualmente todos estes rituais são possíveis ao longo do dia, sem prejuízo do trabalho ou da sua qualidade, mediante um simples acesso à Internet. Naturalmente que, por motivos que se prendem com a possibilidade de extravio de informação ou deliberada intenção de a propagar, certas organizações de carácter mais secretista poderão limitar ou controlar o fluxo de informação. Mas apenas nesses casos.

As organizações e empresas actuais operam a um nível global, onde a conversa com a sociedade envolvente é de extrema importância. Para além disso, é evidente que um colaborador bem informado representa uma mais valia para a organização. Desta forma, o corte de meios e o subaproveitamento de canais, não só influencia o grau de conhecimento do colaborador, como poderá influenciar a imagem da organização (o que se verifica, desde agora, com a Comunicasom).
As organizações necessitam de um rosto humano, de conversar com o exterior. Necessitam que os colaboradores troquem impressões entre si acerca dos mais diversos factos, actualidades, internos ou externos. Exige dinamismo.
Por outro lado, a não utilização das ferramentas que a Internet possibilita apenas faz com que se volte à década de 1980, e consequentemente às perdas de tempo que se verificavam então.

Embora à primeira vista a utilização de sistemas de mensagem rápida possa parecer um “abuso” aos mais ignorantes da matéria, na realidade este sistema representa uma grande economia, tanto ao nível de tempo, como ao nível da psicologia organizacional.

  • As pessoas gastam muito menos tempo a enviar e a responder a uma mensagem no MSN, que a fazê-lo por SMS ou telefonema.
  • As pessoas que têm o MSN ligado, não só com clientes, mas com familiares e amigos, têm a possibilidade de “descansar os olhos” de vez em quando, executando o trabalho de forma mais descontraída. É como trabalhar na sala de estar.

Mas não podemos caír em exageros. Os gestores devem, sem sombra de dúvidas, permitir a utilização destas ferramentas, mas devem fazê-lo ao mesmo tempo que impõem regras de utilização, explicando cada uma delas - quais os motivos, os objectivos, os resultados esperados, a penalização pelo não cumprimento.
Sabemos que, na sociedade actual, a informação vale ouro. Por isso, o seu fluxo deve ser monitorizado. Mas essa monitorização deve ser feita sem recurso ou mesmo intenção de colher dados acerca da informação em si, a não ser que o trabalhador a isso esteja voluntariamente disposto, ou que esta se refira inequivocamente ao trabalho.
Desta forma, explicadas os princípios e as regras de utilização desta ferramenta, cabe aos colaboradores acatá-las rigorosamente, assim como caberá aos gestores controlar se estas estão a ser cumpridas.

***

Qualquer um de nós pode, actualmente, “espalhar a palavra” em segundos. Isso parece incomodar muita gente, especialmente os que criam, manipulam e utilizam a informação em proveito próprio ou de objectivos inconfessáveis.

Qualquer um de nós pode, actualmente, “espalhar a palavra” em segundos. Isso parece incomodar muita gente, especialmente os que criam, manipulam e utilizam a informação em proveito próprio ou de objectivos inconfessáveis.

Notas Finais

O assunto tratado reflecte um dos piores erros de gestão: eliminar o que não se compreende ou se tem dificuldade em controlar.

  • Eliminar o que não se compreende: a empresa em questão trata de eliminar a utilização de uma ferramenta por manifesta incapacidade de compreensão da sua utilização por parte dos gestores que reflectem assim uma posição frágil no que à sua segurança concerne. Na realidade, a obsessão pelo controlo da informação acontece nos casos em que as pessoas não estão à vontade, pelos mais diversos motivos.
  • Eliminar o que se tem dificuldade de controlar: foi o que fez o gestor da Comunicasom, ao retirar a Liliana Fernandes do activo, por motivos que, segundo a minha opinião pessoal, não são suficientes.

A comunicação de forma geral, a circulação de informação, enfim, o acto social de partilha, tem vindo a ser falado como nunca antes. A Internet deu acesso à informação e, mais importante que isso, deu acesso à sua criação e partilha pelos que estão afastados do exercício do poder.

Qualquer um de nós pode, actualmente, “espalhar a palavra” em segundos. Isso parece incomodar muita gente, especialmente os que criam, manipulam e utilizam a informação em proveito próprio ou de objectivos inconfessáveis.

A ingorância dos conceitos básicos da forma de comunicar na sociedade actual está, a par do restante, a querer instaurar uma época de obscurantismo forçado. «Limitem-se as bases, isto pode tornar-se perigoso.»

E a realidade é que pode mesmo! Especialmente nos casos em que, como no presente, as gestões não sabem contar com a possibilidade de o seu despotismo vir a ser repercutido nesta imensa conversa que, por muito que tentem, por muitos que sacrifiquem, terão muitas dificuldades em parar.

O mundo está a andar. Para onde, ainda não se sabe. Mas, enquanto houver possibilidade, a sua marcha há-de aparecer nos monitores de milhões de casas, das mais diversas formas, nas mais diversas visões e opiniões, a ser lido e discutido pelo anónimo mais anónimo que exista.

A bem da Liberdade.

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