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Desabafos | Blá-Blog

Don Quijote by Honoré Daumier (1868)

Image via Wikipedia

Posso dizer que a maioria das vezes que venho a este blogue para debitar uns quantos caracteres, o faço sem saber ainda o que direi.
A coisa funciona mais ou menos assim: leio os jornais, leio os blogues, adopto e adapto influências e alguma coisa há-de sair. Uma ou outra vez, lá consigo deixar por aqui um texto original, uma opinião que se preze ou um desabafo que me denuncie.
Mas a realidade é que o clipping cada vez tem um lugar maior neste blogue.
É certo que, apesar de o fazer, faço-o com alguma dignidade. Refiro as fontes, lanço hiperligações, faço as vénias devidas aos autores – concorde ou discorde com o que por lá se publica. No entanto, cada vez se torna mais difícil dar um toque pessoal ao que publico. Por vezes, deixo apenas o link, ali pendurado, como quem cumpriu o dever.

Se há coisas que detesto é mandar postas sem mais nem porquê, apenas para manter o blogue. Este, o fractura, tem durado. Os que me conhecem melhor sabem perfeitamente que, noutro tempo, nem uns três mesitos teria de vida. Logo deixaria de o ser, para passar a ser outro, ou outros, que também acontece.
Mas tem durado, muito devido à minha recente mania de – uma vez por outra – ir verificar as tendências no Analytics, coisa breve mas que me diz que, em grande parte, este espaço serve a algumas pessoas. Não sou muito dado a SEO’s e coisas assim. Talvez seja um erro.
Houve uns dias em que tive, é certo, uma nesga de ideia em transformar este blogue em “coisa séria”. Cheguei a pensar que poderia, enfim, poder levá-lo a algo maior. Mas depressa me deixei dessas coisas.

Leio agora, com mais tempo, o artigo de Paul Boutin, na Wired, que me diz que isto dos blogues está ultrapassado, que o Twitter, o Flickr, o Facebook, fazem os blogues “ser tão 2004”. E tem razão, lido o artigo.
Não concordo com tudo o que o Boutin diz, mas subscrevo algumas coisas.
Contrariamente ao que lançou a blogosfera nesses anos idos, os blogues do topo, os que ditam a memória, são todos, ou quase, profissionais. Parece já não haver espaço para os blogues pessoais, que ficam entregues a clientela suspeita e ao insulto na caixa de comentários.

A motivação para um blogue é diversa, consoante o escriba e o desenvolvimento do blogue. Muitas das vezes a coisa começa de uma forma e acaba noutra. Como aqui.
Se forem dar uma volta aos primeiros artigos (uma salgalhada que fui buscar a diversos blogues que mantive, enfim, destroços em desorganização completa), hão-de reparar que a escrita, o teor desta, o conteúdo e a forma eram substancialmente diferentes do que são hoje. Mas isso não me importa. Como já disse, o blogue funciona como uma espécie de cronologia do conhecimento e, no meu caso, quando o leio, até acho piada.
Verto, subverto, mudo de opinião, e não devo nada a ninguém.

Então, o que se passa? Porque chego agora a este ponto e nem sequer sei acerca do que hei-de escrever? Porque tenho tanta informação guardada “para mais logo” – o artigo do Boutin é exemplo disso - e a preguiça vence?
A resposta é simples: tenho andado por onde não devo.
Mas a coisa complica-se quando penso por onde, afinal, devo ir. E a realidade é que não sei.
Quase apetece colocar um anúncio que diga “Nicho, Precisa-se.” Porque é de nichos que se fala.

Quando entrei para a rede Tubarão Esquilo, a convite do Paulo Querido, mantinha um proto-blogue chamado ISCAP-com que deu origem a mais não sei quantos, antes de se tornar no extinto “Comunicação Empresarial”. A par desse, entrou o fractura, como meu blogue pessoal. Tinha, por isso, um “blogue de nicho” – sem dúvida o de maior sucesso que mantive até hoje – e um blogue para as minhas “más disposições”.
Como costume, em todos os blogues que mantive até hoje, estes ficaram abertos a colaborações, viessem de quem viessem.
É que eu sou daqueles gajos que ainda usam termos como “partilha” e “divulgação”, um idealista “muito 2004”, portanto. Mas não resultou.
Seguidamente, ainda mais um projecto colaborativo, o “Cadernos de Comunicação Estratégica”, a contar com uma série de pessoas que amavelmente cederam ao convite. Mas a coisa ficou por aí.
A bem dizer, embora não por todos os motivos que Paul Boutin aponta, sou a modos que um desiludido da blogosfera.

Mas eu explico porquê.
Primeiramente, devo considerar-me puramente amador. Aos que já me perguntaram se trabalhava aqui ou ali, se trabalhava para este ou para aquele, posso dizer que este blogue é apenas um hobbie e nada mais. A minha profissão nada tem a ver com o que por aqui anda, a não ser que me falem de autocarros – e, mesmo assim, nem de todos.
Vai daí, olho para isto dessa tal forma idealista mas, tudo o que consigo ver é uma chusma de egos cada vez mais inchados, maiores que a blogosfera toda junta, com o Pacheco Pereira incluído. O que vejo é muita gente mais preocupada com as palavras-chave para o Google do que com o conteúdo do artigo que vão publicar. Vejo é muita gente preocupada em fazer o “link que interessa”, o comentário ao artigo do “guru”, a andar na roda viva das influências que, a alguns há-de arranjar que fazer, a outros há-de simplesmente insuflar ainda mais o ego.
E, no entanto, Boutin – e outros – explicam que tudo é passageiro.

Se eu seguisse conselhos, estaria a escrever um post com as 140 letras mágicas no título, preocupar-me-ia com as tags e categorias, iria ver como anda o Google Trends e ocupar-me-ia de um sem número de meta-qualquer-coisa no template. Para vos ser sincero, tenho por aqui algo chamado “All In One SEO” (creio) e nem sei muito bem o que fazer com isso.
Depois, passaria mais tempo a tentar compreender o que vale a pena escrever para ganhar audiência, popularidade, enfim, os louros de um blogger.
Mas tempo é coisa de que não disponho. Talvez um dia, em que não trabalhe. Mas talvez nesse dia tenha algo mais a fazer ou, se tudo correr bem e eu tiver trabalho até à reforma – e se esta existir ainda – já não existam blogues.

Tudo isto para vos explicar que não sei muito bem se existe ainda motivo para pagar um domínio e um alojamento. Para ser sincero, não sei muito bem se existe motivo para manter um blogue, seja ele de que forma for.
É que um blogue exige actualização, assunto, conteúdo. E isso anda raro para os meus lados. Ironia das ironias, este blogue tem conseguido falhar a todos os acontecimentos relevantes, salvo uma ou outra excepção, em post de lavra descuidada e apressada.
Enfim, tenho que equacionar tudo isto.

Mas fiquem-se com esta: mais uma viagem, o resto da semana fora. Uma vez mais, blogue suspenso até à semana que vem. Comentários, com tempo, ainda os irei moderando e publicando. As respostas as estes virão com tempo.
E a resposta a mim próprio e ao fractura também.

Até lá.

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