Livros | José Luís Peixoto Além-Fronteiras
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Quando o encontrei, estava como morto. Tinha o dia começado na janela, quando senti a mulher dele bater à porta. Tinha um púcaro de leite ao lume e não o bebi. Saíu ontem com as ovelhas e não voltou. Passei a noite amargurada, sem dormir, sem pensar noutra coisa. Ela fala muito pouco. Escolhe as palavras, como as laranjas que se apanham do chão, como os cães mais viçosos das ninhadas. Onde andará o homem? Ajude-me. Falou mais nessa manhã. E, se calhar, foi por isso que me pareceu tão verdadeira. Se o José não tivesse levado as ovelhas, acreditava que tivesse bebido bem e se esquecesse do caminho que leva da venda do b. ao monte das oliveiras; mas levando-as, conheço-o ainda ele andava aí atrás do pai, a apanhar grilos e a dispor ratoeiras aos pardais, e sei, mas sei mesmo mesmo, que ele só por muita força de problemas é que deixaria de cumprir o que lhe é devido. As minhas botas na areia, faziam um ruído arrastado. Ao andar, escutava-me e sabia que tinha acontecido alguma coisa. Quando o encontrei, estava como morto. Tinha o pescoço torcido num trejeito sem vontade e o seu corpo, estendido pela terra, era como uma pedra que ali tivesse nascido, parada, e moldada por um estranho capricho com a forma exacta de homem. A cadela, aliviada do trabalho de manter toda a noite as ovelhas juntas, correu para mim como uma criança a contar-me tudo. Lambeu-me as mãos enquanto lhe fazia festas na cabeça. O José, como morto, continuava, de olhos vidrados, muito abertos, a fixar o sol. Com a ajuda da cadela, encostei-o ao tronco e, como não posso com ele, fui ao monte buscar um carro de mão. Na subida, sem que o pudesse evitar, a mulher dele olhou-me longamente e leu-me o olhar. Já desinteressada, perguntou por ele, esperou pela minha resposta e, sozinha, regressou ao silêncio. Com as pernas e os braços dobrados para fora do carro de mão, quase a tocarem a terra, o José manteve-se todo o caminho de olhos abertos. À nossa frente, a cadela tocava o rebanho. Ele, como morto, fixava o sol e o coração levantava-lhe uma palpitação na fazenda da camisa por cada vez que batia.
Crítica norte-americana rende-se ao talento de José Luís Peixoto
O romance que lançou José Luís Peixoto na literatura portuguesa, “Nenhum Olhar”, vencedor da edição de 2001 do Prémio José Saramago e já traduzido em 16 idiomas, tem, em todas as suas edições, recebido os maiores elogios da imprensa internacional.
Com a edição deste romance nos Estados Unidos, aos 33 anos, Peixoto atinge um sucesso internacional ao alcance de muito poucos autores europeus da sua geração e que entre autores portugueses da sua idade é absolutamente inédito.
Após o sucesso da primeira edição Inglesa, e enquanto se espera a edição de bolso nesse mesmo país (a sair em Novembro), onde recebeu as melhores críticas de jornais como The Independent, Guardian, Metro, Financial Times (onde integrou a lista anual dos melhores livros publicados no Reino Unido em 2007), assim como da Esquire, entre outras publicações, “Nenhum Olhar” tem desde o início de Agosto a sua edição norte-americana.
Com o título “The Implacable Order of Things” (o título britânico era “Blank Gaze”), este livro tem recebido uma rara atenção por parte da imprensa norte-americana e tem repetido o sucesso já alcançado nos idiomas onde foi publicado anteriormente.
Numa longa crítica publicada a 22 de Agosto, intitulada “Peixoto transcende tradução”, escreve o San Francisco Chronicle:
“O diálogo está quase ausente deste romance. As personagens de Peixoto falam por fluxos de consciência e apenas para elas próprias. Têm uma imensa desconfiança na linguagem, talvez por não saberem ler ou escrever. Mas que maravilhosa oportunidade oferecem ao autor para demonstrar a sua própria virtuosidade linguística! As imagens que Peixoto evoca para ajudar os seus personagens a comunicar são singulares e inesquecíveis.”
Escreve também:
“A natureza prevalece como a força governadora e o brilhantismo e poder de Peixoto reside precisamente no seu desejo de imitar a capacidade que a natureza tem de criar e destruir ao mesmo tempo.” Concluindo que “este desafiante romance é testamentário da ambição artística do autor”.
Na Library Journal, a publicação das bibliotecas públicas norte-americanas, escreveu-se sobre “Nenhum Olhar”:
“Vindo dos mundos da poesia e do teatro, o premiado romancista português Peixoto escreve uma prosa directa que, na sua cadência encantatória, leva os leitores a novos píncaros de realização. Recomendado.”
Este livro, que a Kirkus Review considerou “uma estreia pungente”, tem a sua primeira edição por parte da Doubleday, um dos selos da Random House, e tem a sua edição de bolso em 2009, já prevista por parte da Vintage & Anchor Books.
Paralelamente, este romance foi seleccionado para a prestigiante e altamente restrita lista semestral “Discover Great New Writers”, organizada pela cadeia de livrarias Barnes & Noble. Cerca de uma dúzia de livros são escolhidos semestralmente para esta lista e, além de terem uma exibição privilegiada nas centenas de livrarias daquela que é a maior cadeia de livrarias dos Estados Unidos (com mais de 70% da totalidade do mercado livreiro norte-americano), ficam também habilitados a receber o prémio anual com o mesmo nome, que, de acordo com a própria Barnes & Noble, é um prémio que muda a vida do autor que o recebe. Entre os autores que integraram esta lista em anos anteriores, encontram-se nomes como Jeffrey Eugenides (autor de “Virgens Suicidas”), Khaled Hosseini (autor de “Mil Sóis Resplandecentes”), Alice Sebold (autora de “Visto de Céu”), entre outros.
Já a partir de Setembro, José Luís Peixoto participará em eventos literários nos Estados Unidos que decorrerão nos mais diversos Estados. Entre estes, destaque para o Festival Literário de Brooklyn (Nova Iorque), e para a presença em várias instituições académicas como a Rutgers University (NovaJersey), Brown University (Massachussets), entre muitas outras.
“Cemitério de Pianos” conquista reconhecimento em diversos idiomas
À semelhança dos seus anteriores romances, também “Cemitério de Pianos” tem sido publicado nos mais variados idiomas com assinalável êxito.
Em França, a primeira edição deste livro (pela Grasset) será agora complementada com uma edição de bolso francesa pela prestigiada Folio. Este mítico selo da Gallimard publica em França a quase totalidade dos grandes nomes da literatura mundial.
Já no Brasil, a obra tem recolhido críticas entusiastas de alguns dos principais jornais brasileiros, como é o caso da Folha de São Paulo ou do Correio Braziliense. José Luís Peixoto regressará aliás ao Brasil em Setembro para participar na Feira do Livro de Brasília, isto após uma rara segunda participação na Festa Literária de Parati.
Também na Holanda, “Cemitério de Pianos”, publicado por Meulenhoff (uma das maiores editoras holandesa), tem sido alvo de excelentes críticas pela generalidade da imprensa.
Na vizinha Espanha, por sua vez, depois do grande sucesso que foi a tradução espanhola de “Cemitério de Pianos” (Prémio Cálamo 2007), as edições El Aleph preparam-se para reeditar “Nadie nos Mira” (Nenhum Olhar), “Te me moriste” (Morreste-me) e publicarão em Outubro, pela primeira vez em Espanha, o romance “Uma Casa na Escuridão”.
Acerca de “Nenhum Olhar”, poderá ainda ler algumas impressões do autor numa entrevista ao Círculo de Leitores, por alturas do lançamento da obra, da qual se publica aqui o seguinte excerto:
Círculo de Leitores online - O que implica não haver “nenhum olhar”?
José Luís Peixoto - Tem uma série de conotações mas aquela que eu considero mais forte remete às relações das personagens entre si. Neste livro não há muitos diálogos e as personagens normalmente comunicam pelo olhar. “Nenhum Olhar” é também um pouco essa ausência de comunicação e de desencontros que acontecem entre as personagens. Por outro lado há também uma outra dimensão do título que passa pela relação que também existe, naquele universo, com Deus. Poderia ser o “nenhum olhar” de Deus sobre aquelas vidas.
CLonline - O desamparo?
JLP - Sim. Naquele mundo, que ali é criado, esse é o fim de todos os caminhos, é o sítio onde todas as relações chegam: ao entendimento do desamparo, à decepção, ao fim da esperança…
CLonline – E o “fim” é o esgotar da esperança?
JLP - Penso que tudo se dirige para lá…daí o final apocalíptico e desesperado. Desesperado no sentido de “sem esperança”.
CLonline - O Diabo é de facto uma figura presente, habitante da personagem do padre, mas Deus permace, como dizia, ausente. Isso é uma provocação?
JLP - Sim. Tentei que fosse uma ausência que se notasse. Foi essa a minha intenção. Levanto uma série de questões que têm a ver com essa ausência, com essa interrogação do que é Deus, onde é que ele está, de que modo é que a vontade dos homens determina o que quer que seja, de que modo é que a vontade de Deus existe…
CLonline - E qual a resposta a todas essas perguntas?
JLP - A minha opinião pessoal, que não é necessariamente a das personagens, é que os homens e as mulheres têm a capacidade para alterar o seu destino. Sou uma pessoa bastante optimista e o facto de ter escrito um livro que dá uma visão um pouco pessimista do mundo é, também, uma provocação. É uma tentativa de levar as pessoas a pensarem. Estamos mesmo predestinados ao que quer que seja ou temos controlo sobre a nossa vida? Eu penso que sim, que temos controlo sobre a nossa vida.


