Media | Jornalismo e Internet
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Trata-se de um texto que o Filinto Melo aconselha, e que me parece apontar algumas das características básicas de diferenciação entre a imprensa tradicional e a comunicação digital feita por cidadãos, especialmente no que à blogosfera concerne.
O texto de Luciano Martins Costa, publicado no Observatório da Imprensa sob o título “A Ilusão de Controle na Internet“, começa por definir uma das principais falhas na concepção da imprensa digital, cuja presença na Internet se rege ainda pelos antigos princípios dos media impressos e da rádio e televisão: a transmissão de informação de uma via apenas, sem interactividade do público.
Luciano Martins Costa vai mais longe, dizendo que a ideia de público faz sentido apenas no teatro, cinema e media não-interactivos.
Esta é, na realidade, uma das principais diferenças entre o modo de operação dos media tradicionais e a blogosfera. A blogosfera vê-se expandida pela intervenção de todos os que nela participa, não sendo raro acontecer que um determinado assunto de ramifique e sofra metamorfoses, muito por via da conversação e da hiperligação, numa democracia para a qual, segundo o autor do artigo, os media tradicionais não estão ainda preparados.
O artigo refere que, embora existam já alguns jornais que publicam blogues e outras ferramentas interactivas, estes não estão ainda com a conversação completamente aberta, tentando conter a interactividade num círculo próximo do núcleo de opinião, cerceando assim o aproveitamento capaz das potencialidades das novas tecnologias.
Este é um assunto que tem vindo a ser discutido por cá e cuja discussão pode ser seguida no Ponto Media de António Granado e no (It’s) Not About You da Lift, pela mão de Miguel Albano. Enquanto no primeiro se discute o que se fazer e como se fazer na caixa de comentários do jornal Público, no segundo pergunta-se quais os códigos de interacção dos jornalistas com o público, qual o papel dos leitores na caixa de comentários, quais os objectivos concretos desta ferramenta.
O autor do artigo “A Ilusão de Controle na Internet” continua falando do amadurecimento da ferramenta blogue que é, actualmente, incontornável na monitorização da percepção e opinião relativa à diversa informação divulgada, não se coibindo de dizer que os blogues são actualmente uma fonte de informação de confiança. Naturalmente, isto poderá ser verdade se, conforme diz o autor, soubermos fazer uma selecção das fontes.
Mas o importante é o que esta ferramenta faz em termos de partilha, em termos de comunidade.
Na realidade, e conforme o autor nos diz, existe uma alteração profunda na forma de partilha e informação, no que a convicções, opiniões e exigência se refere. Esta alteração reflecte-se, não só nos sites e blogues pessoais, mas também nos informativos e corporativos.
Se nos informativos a questão se trata da sujeição do jornal à interactividade, com todas as implicações que esta traz ao nível de percepção, ética e influência, no caso dos blogues corporativos, a questão prende-se, de forma incontornável, com a reputação e imagem da organização.
Como digo na barra lateral da página principal deste blogue, considero que o conteúdo dos blogues passa, também, pelos comentários publicados. Embora a sua concepção não seja da responsabilidade de quem mantém o blogue, a manutenção de uma caixa de comentários coerente com o conteúdo e personalidade do blogue sua. Não se pode, por tanto, esperar que um blogue corporativo tenha na sua caixa de comentários textos de carácter que não se reveja nos parâmetros éticos da organização e desse seu espaço de interacção.
Outra coisa que se deve evitar é a que Miguel Albano refere na sua resposta ao meu comentário: apesar de se considerar que a blogosfera é uma imensa conversa, não podemos deixar, no caso de um blogue corporativo, que a caixa de comentários se transforme num fórum de discussão.
Por fim, Luciano Martins Costa confessa o seu cepticismo em relação à completa abertura das caixas de comentários em jornais, sem a mínima interferência destes na sua moderação. Segundo o autor, tal situação poderia acarretar danos, deturpando as formas e significados do material jornalístico, à semelhança do que acontece já pela propagação de notícias, reproduzidas segundo a percepção e opinião de bloggers.
Assim, recapitula, «(…) o que se pode constatar é que, por mais que resistam à avalancha de mudanças, os meios tradicionais acabam perdendo o controle sobre o destino do conteúdo que produzem, quando eles caem no ambiente caótico das redes. Se tivessem uma estratégia de engajamento real nas novas tendências, abandonando a ilusão do controle, seriam a vanguarda da comunicação no século 21, agregando à reputação construída no século passado a confiança de uma relação mais aberta com a sociedade.»
Salvaguardados os possíveis perigos de uma comunicação alternativa, a relação entre os jornais e as empresas com os bloggers deve tornar-se uma realidade.
Já não basta a informação unilateral, é necessária a interacção que permita um controlo da percepção e das tendências, numa relação aberta com a sociedade.
Mas pergunto: como seleccionar, entre a miríade de blogues, os que a imprensa há-de auscultar? Que critérios estarão presentes nessa selecção? O conteúdo? O ranking? As reacções? As tendências políticas?
É uma enorme responsabilidade, esta da selecção de blogues a “utilizar”. Bastará dar uma volta pelas páginas dos jornais que disponibilizam reacções da blogosfera para verificar que são sempre os mesmos que lá aparecem, ao contrário do que se passa na blogosfera, onde até um blogue modesto como este tem possibilidade de obter ecos do seu trabalho.
Uma outra questão que fica em aberto no meio disto tudo: Os bloggers, na sua maioria, trabalham por gosto. Os jornais trabalham por dinheiro.
Desta forma, como conciliar esta abertura, necessariamente gratuita, com a necessidade de capitalização da informação e do seu retorno?
Digam de vossa justiça!
