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Teoria da Comunicação #2 | A “Sociedade da Comunicação”

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[série teoria da comunicação]

A “SOCIEDADE DA COMUNICAÇÃO”

A sociedade actual é comummente chamada “sociedade da comunicação”.
Sabemos que a comunicação enquanto realidade social e problemática tratada pelos diversos teóricos existe já em sociedades anteriores à nossa. No entanto, a realidade da sociedade actual distingue-se das anteriores precisamente pela delimitação do conceito de “sociedade da comunicação” a partir de algumas componentes fundamentais: a tecnológica, a ideológica, a política, a económica e a cultural.

  • Componente Tecnológica: a partir do que nos diz McLuhan acerca da evolução das sociedades, esta “sociedade da comunicação” representa o estádio final da “galáxia Marconi”, caracterizado por três aspectos fundamentais:
    • Automatização da Comunicação: é possibilitada pelos meios electrónicos, como o cinema, a rádio, a televisão e o computador;
    • Mundialização da Comunicação: é possibilitada pelas redes de telecomunicações, tal “tribo planetária” ou “aldeia global” de McLuhan; e
    • Papel Central da Imagem na Comunicação: com o objectivo da “transparência” total e da “tele-presença”.
  • Componente Ideológica: a cibernética de Norbert Wiener surge nos finais da II Guerra Mundial, sugerindo a “utopia da comunicação” de onde deriva o conceito de “sociedade da comunicação”. Para Wiener, a comunicação – entendida como livre circulação de informação - é a única responsável pela organização auto-regulada das sociedades, eliminando entropia e a consequente desordem;
  • Componente Política: a comunicação desempenha um papel fulcral na tomada de decisão e sua avaliação, resolução de conflitos, escolha de programas de governação, numa sociedade democrática;
  • Componente Económica: esta sociedade é uma sociedade “pós-industrial”, em que os bens relativos à “informação” e à “cultura” – bens que são objecto de comunicação: livros, jornais, filmes, cd’s, etc.), vão ganhando terreno aos bens materiais; e
  • Componente Cultural: esta é uma cultura caracterizada pela dialéctica global/local, somente possível por redes de comunicação transnacionais, que tornam a informação global visível localmente e fazem o local ser conhecido globalmente.

Bernard Miège, em “La Société Conquise par la Communication” (Grenoble, Presses Universitaires, 1989), caracteriza a sociedade actual como sendo “conquistada pela comunicação”, dizendo que, dados os factores acima descritos, o indivíduo está submetido a uma “obrigação de comunicação”.

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A “SOCIEDADE DA COMUNICAÇÃO”

Contrariamente ao que é habitual pensar-se em certas utopias, a “sociedade da comunicação” não é um local onde reina a cooperação sobre o conflito, o consenso sobre a dissenção, a compreensão mútua sobre a incompreensão. Afinal, se na “sociedade da comunicação” a cooperação tem a vida facilitada, também a terá o conflito, sendo esta fórmula válida para as restantes oposições.
Note-se ainda que nem sempre o primeiro termo da equação é necessariamente um bem maior que o segundo: se um grupo terrorista tem a cooperação, o consenso e a compreensão facilitados, tem decerto muito maior facilidade em perpetrar um acto terrorista.
Por outro lado, quanto maior for o conflito, a dissenção e a incompreensão (em determinados limites) no seio de um grupo de trabalho que analisa um problema, maior é a facilidade que este tem em encontrar uma solução.

Assim, dizer que a “sociedade da comunicação”, porque é uma sociedade onde as pessoas comunicam mais, se trata de uma sociedade onde comunicam melhor, é errado. Esta sociedade é apenas diferente de outras que a antecederam ou de algumas ainda suas contemporâneas.
Tempo de atentar nas de Adriano Duarte Rodrigues em “A propósito da comunicação” (in “Filosofia e Epistemologia II”, Lisboa, A Regra do Jogo, 1979):

«nunca se falou tanto de comunicação como desde a Última Guerra; talvez nunca a comunicação tenha ocupado tão pouca importância na reorganização das sociedades.»

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Teoria da Comunicação #1 | Noções Fundamentais: Escolas Processual e Semiótica

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[série teoria da comunicação]

NOÇÕES DE COMUNICAÇÃO

De acordo com Raymond Williams, a palavra ‘comunicação’ surgiu na língua inglesa no século XV, derivada do latim communicare – tornar comum, partilhar -, assumindo também o significado de “objecto que é tornado comum”. Com a Revolução Industrial, a palavra vê o seu campo semântico alargado aos meios e vias de comunicação, ficando assim a designar, não só a circulação de informação e ideias, como o transporte de coisas e pessoas. Por fim, já nos anos 20 do passado século XX, esta palavra ‘comunicação’ passa a designar os media, verificando-se então a distinção entre a imprensa ou a rádio e os caminhos-de-ferro ou o navio a vapor.
Mas ainda segundo Williams, esta palavra pode abarcar um sentido duplo enquanto nome de acção: o de transmissão, processo de sentido único; o de partilha, processo comum ou mútuo (Raymond Williams, Keywords, A Vocabulary of Culture and Society, 1988).

A junção das ideias de partilha e comunhão e de transmissão num mesmo campo semântico funda o que será a linguagem dos estudos e teorias da comunicação. Com efeito, James Carey publica um artigo em 1975, no qual distingue duas visões principais da comunicação (James W. Carey, A Cultural Approach to Communication, Mc Quails Reader in Mass Communication Theory, 2002):

  1. Transmissão: «é a mais comum na nossa cultura» sendo «definida com termos como ‘fornecer’, ‘enviar’, ‘transmitir’ ou ‘dar’ informação a outros. É formada a partir de uma metáfora de geografia ou transporte. (…) O centro desta ideia de comunicação é a transmissão de sinais ou mensagens à distância com a finalidade de controlo»
  2. Ritual: «a comunicação está associada a termos como partilha, participação, associação, camaradagem e a posse de uma fé comum (…) Uma visão ritual da comunicação está orientada, não para a extensão das mensagens no espaço, mas sim para a manutenção da sociedade no tempo; não para o facto de fornecer informação, mas sim para a representação de crenças partilhadas»

Mc Quail junta aos dois modelos os do ‘publicitário’ e ‘de recepção’, observando que o modelo transmissivo está mais ligado às ciências sociais, com particular incidência na sociologia, ao passo que o modelo ritual ou culturalista estará mais relacionado com as humanidades, tais como a literatura, a linguística e a filosofia.

ESCOLA PROCESSUAL E ESCOLA SEMIÓTICA

Por seu turno, John Fiske advoga duas escolas principais de comunicação, à semelhança de Carey (John Fiske, Introdução ao Estudo da Comunicação, 2002):

  1. Processual: Concebe a comunicação como transmissão de mensagens, procurando atingir-se determinados efeitos sobre o receptor, centrando-se nas questões da eficácia e da exactidão da comunicação. Relaciona-se sobretudo com as ciências sociais, como a sociologia e a psicologia.
  2. Semiótica: A comunicação surge aqui como a produção e troca de significados resultante da interacção das pessoas com as mensagens ou textos. Centra-se nas questões relacionadas com as diferenças culturais entre receptores e emissores, relacionando-se sobretudo com a linguística e as artes.

Apesar de Fiske seguir Gerbner, definido a comunicação como interacção social através de mensagens, não deixa de observar que, quer o conceito de interacção social, quer o de mensagem, são interpretados de forma diferente pelas duas escolas:

  1. Conceito de Interacção Social
    • Escola Processual: «Processo pelo qual uma pessoa se relaciona com outras ou afecta o comportamento, estado de espírito ou reacção emocional de outra e, é claro, vice-versa».
    • Escola Semiótica: «Aquilo que constitui o indivíduo como membro de uma cultura ou sociedade determinadas».
  2. Conceito de Mensagem
    • Escola Processual: «O que é transmitido pelo processo de comunicação», de modo intencional segundo uns, de modo não intencional ou intencional segundo outros.
    • Escola Semiótica: «Uma construção de signos que, pela interacção com os receptores, produzem significados».

Tanto Carey como Fiske consideram que ambas as escolas da comunicação não são incompatíveis. No entanto, para Fiske estas podem complementar-se, ao passo que para Carey, a comunicação por transmissão acaba por se integrar na comunicação ritual, pressuposição para que a transmissão possa ser efectiva. Assim, segundo Carey, poderá definir-se a comunicação como «o verdadeiro processo social mediante o qual as formas simbólicas significantes são criadas, apreendidas e usadas» ou «um processo simbólico mediante o qual a realidade é criada, partilhada, modificada e preservada».

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